Livro propõe história social da cultura escrita

As palavras estão em todos os lugares e não têm dono: elas compõem um mosaico de diferentes iniciativas e atores, pelas quais a humanidade expande continuamente a sua comunicação e cultura. Em Grafias do Cotidiano – Escrita e Sociedade na História (séculos XVI a XX), o professor Antonio Castillo Gómez tem como mérito trazer à tona perspectivas diversas dessa história, descortinando a contribuição menos percebida: os escritos de quem não integra a elite intelectual ou de quem está à margem da sociedade.

Sob a égide de dados históricos, o livro, publicado em parceria pela EdUERJ e EdUFF, contribui para os estudos acerca da linguagem, estatuto que se faz indissociável do desenvolvimento dos valores científicos, da literatura ou da política. Para o autor, urge que se estude uma história social da cultura escrita, “uma vez que os historiadores, com honrosas exceções, pouco de ocuparam da escrita como tecnologia de poder, conhecimento, comunicação e memória”. Nesse sentido, a obra valoriza a função social da escrita, ampliando a percepção sobre a importância das pessoas comuns para a construção da linguagem, ao inovarem ou contornarem eventualmente limites de um repertório linguístico, impulsionadas tantas vezes pela imperiosa necessidade de transmitir suas ideias.

O livro se divide em cinco partes. Na primeira, aborda as metodologias utilizadas para a historiar a cultura escrita. A segunda parte tem como tema a “Escrita e pessoas comuns”, com enfoque nas expressões populares, incluindo uma síntese dos acontecimentos relevantes da baixa Idade Média até os dias atuais. A parte seguinte versa sobre as escritas pessoais, como as autobiografias, as cartas e os livros de memória. Já na quarta parte, o autor analisa textos produzidos por aqueles que se encontravam em privação de liberdade, principalmente as expressões que nascem nas cadeias inquisitoriais da Idade Média e as oriundas das prisões da ditadura franquista, adventos que o autor atribui aspectos em intersecção.

Por fim, o último segmento “Os muros tomam a palavra” enfoca períodos na Idade Moderna e na Idade Média, em que os textos ganham as ruas, eventualmente com ares de manifestação política. Entre eles, os grafites juvenis que eclodiram como fenômeno juvenil das metrópoles ou as frases que durante a ditadura franquista ornamentavam as lápides daqueles que lutaram contra a república e a liberdade.

Por fim, trata-se de um registro valorizado por nuances históricos, em quatorze capítulos que ajudam a compreender a história e a função social da escrita e a enorme variedade e riqueza que caracterizam as manifestações que brotam da vida cotidiana.

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