Entrevista com Solange Nascimento, autora de livro sobre argumentação

O Blog da EdUERJ entrevista agora a professora Solange Nascimento, doutora em língua portuguesa pela UERJ. Ela é autora de “Argumentação no gênero carta de leitor de jornal”, publicado pela EdUERJ em 2022, em formatos físico e digital.

Professora, poderia descrever a proposta do seu livro? 

Esse livro é o resultado de uma pesquisa desenvolvida no Doutorado e apresenta um estudo da argumentação no gênero carta de leitor de jornal, com ênfase na análise de sua natureza, sua estrutura geral e sua linguagem, a partir de um conjunto de 74 textos. O objetivo é expor alguns dos principais conceitos e perspectivas sobre argumentação, com base teórica na Semântica Argumentativa e na Linguística Textual. Também são propostas estratégias e ações para trabalhar o tema da argumentação em sala de aula do ensino médio, com cartas de leitores, orientando análises, planejamento e produção de textos.

Por que argumentação é um tema tão relevante nos dias de hoje?

O ensino da argumentação deve ser um dos principais objetivos pedagógicos da escola para uma formação de indivíduos críticos e atuantes na sociedade.

No trabalho, na escola e em diversos grupos sociais, somos submetidos, frequentemente, a várias situações em que precisamos nos manifestar, nos posicionar no mundo, em nossa realidade. Buscamos convencer os outros sobre várias ideias e tentam nos convencer sobre diversos interesses.

Saber comunicar-se, expressar-se e argumentar é primordial em um mundo cada vez mais interativo e dinâmico. Por isso, a escola deve ser a principal responsável por formar e capacitar indivíduos reflexivos e críticos, conscientes e atuantes, principalmente por meio do exercício da leitura e da escrita.

Na obra, você analisa 74 cartas publicadas no jornal “O Globo”. O que te levou a escolher a carta de leitor como corpus da análise?

Os jornais normalmente destinam um espaço para dar voz aos leitores, com a publicação de partes de cartas, e-mails ou mensagens de whatsapp. A equipe do jornal então seleciona e edita esses textos. Nesse espaço, os leitores apresentam seus pontos de vista acerca de diferentes temas, expondo e defendendo suas ideias, com uma linguagem um pouco mais livre e menos formal. Isso possibilita ao público do jornal se expressar e ter acesso a diferentes posicionamentos, algumas vezes, sobre um mesmo assunto. Assim, o gênero carta do leitor tem natureza argumentativa, já que aborda temas polêmicos, noticiados pela mídia, sobre os quais se apresentam opiniões e justificativas.

Por conta de sua estrutura mais simples, tamanho menor e linguagem mais informal, o gênero apresenta-se como uma boa ‘porta de entrada’ para o estudo de argumentação em sala de aula, no sentido de serem textos diversificados, produzidos por sujeitos de diferentes formações e realidades, ao mesmo tempo em que são um material propício para um trabalho de conscientização de que os estudantes podem também formar seus posicionamentos, a partir de diferentes visões, e se manifestar em sociedade em um veículo de imprensa, e não somente em suas redes sociais, apropriando-se assim de outros espaços de comunicação.

Quais foram os aportes teóricos da sua pesquisa?

Na obra, são discutidos alguns pressupostos teóricos sobre a teoria da argumentação, considerando elementos como intencionalidade e argumentatividade, e alguns fatores que determinam as condições para esse modo de organização do discurso. São apresentadas as noções de tema, tese e argumento, elementos fundamentais no texto argumentativo, e questões relativas à polifonia, em relação ao caráter dialógico da relação entre tema e tese, da presença de citações, de ironia e de linguagem figurada.

Além disso, é abordado o conceito de gênero textual, em relação direta com a noção de modo de organização do discurso. O estudo apresenta algumas influências da constituição do gênero na argumentação, e vice-versa, como também os sentidos construídos do papel do enunciador e do destinatário, do espaço, do tempo e do veículo.

Como base teórica para esse trabalho, em relação à fundamentação do conceito de argumentação, foram tomados como base os trabalhos de Ducrot e Charaudeau, principalmente, e de Koch, relacionados à Semântica Argumentativa, e do conceito de gênero textual, as obras de Maingueneau e de Marcuschi.

Quais são os critérios utilizados para avaliar a qualidade de uma argumentação?

Poderíamos entrar num discussão mais aprofundada se parássemos para refletir sobre a ideia de “qualidade”, pois se trata, de certa forma, de um conceito subjetivo. Mas esse seria um outro desdobramento para a questão. Então, considerando essa ideia de forma mais simples, poderíamos dizer que a qualidade de uma argumentação estaria, mais diretamente, associada a uma “eficiência” no processo comunicativo, em sua intencionalidade de convencer ou persuadir a outro em uma ideia ou opinião. Assim, seria fundamental apresentar os termos da polêmica contextualmente no texto em si, a defesa da ideia ou do posicionamento de forma clara e argumentos, que sustentariam essa ideia, coerentes, verificáveis na realidade de alguma forma, fundamentados em dados, notícias, discursos de autoridades no assunto etc.

Em paralelo, é importante também ter uma consciência sobre seu auditório, ou público-alvo, e o veículo em que seu texto irá circular, para adequar seu discurso, sua linguagem, seu vocabulário, e até mesmo a escolha e a organização de seus argumentos.

Nos textos argumentativos, de modo geral, há certas condições que devem ser atendidas, considerando o contexto comunicativo e a estrutura textual. Em relação às cartas de leitores, por exemplo, esse gênero atende às condições específicas para tal, pois apresenta uma proposta suscetível de questionamentos, um argumentador e um sujeito-alvo, e também, em sua estrutura geral, um tema, uma tese e argumentos, condições básicas de argumentação.

Voltando à carta de leitor de jornal. Ela pode ser considerada um gênero textual específico. Qual seria o diferencial desse estilo de carta?

A carta do leitor é um gênero textual em que predomina o modo de organização discursivo argumentativo, pois a intenção do autor do texto é buscar a adesão do destinatário em relação à ideia que defende a respeito de um tema polêmico e amplamente conhecido, diferentemente da carta comum, em que muitas vezes pode predominar o modo narrativo e um caráter particular.

Uma distinção importante é estabelecida entre tema e tese, em que o primeiro representa um problema ou a tese proposta e a segunda apresenta uma proposta de solução ou a opinião sobre a questão. Nas cartas, é possível, de modo geral, relacionar tema a problema, já que em muitas delas há uma motivação vinda de uma situação em que se expõem complicadores ou dificuldades, sobre os quais o autor deseja opinar ou exigir/sugerir melhorias ou soluções.

As escolhas lexicais, com ocorrência de sentido figurado, de modo geral, colaboram para compor o quadro argumentativo dos textos, enfatizando pontos de vista que revelam angústia, insatisfação ou satisfação, indignação – emoções do enunciador.

Assim, a carta do leitor é um gênero textual específico gerado a partir de determinadas condições sociais e culturais. Como já dito antes, quem escreve ao jornal parte de uma situação problemática noticiada recentemente, tendo como objetivo expor seu posicionamento a respeito do tema – reclamando, sugerindo, reivindicando, elogiando etc.

O jornal também participa da construção do texto publicado, fazendo cortes e atribuindo títulos, por exemplo. É o jornal que supervisiona e coordena os diálogos entre os leitores. Isso faz parte das condições estabelecidas nesse processo de comunicação, que devem ser levadas em conta no trabalho com o material em sala de aula.

O livro traz sugestão de ações em sala de aula. Por que deve ser feito um trabalho específico sobre argumentação com alunos do ensino médio?

Ensinar os alunos a argumentar deve ser sempre o objetivo pedagógico prioritário da escola, em todas as disciplinas, assim como desenvolver uma leitura crítica de mundo e dos textos. Entretanto, o maior desafio se dirige, sem dúvida, aos professores de Língua Portuguesa: pensar práticas pedagógicas que possibilitem a formação de uma autonomia linguística para o estudante, discutindo também o que acontece na realidade político-social e criando oportunidades reais de interação.

Ensinar a argumentar é ensinar a entender o mundo de forma consciente e crítica, a articular ideias, a usar o discurso como forma de poder e de ação. Por isso, é preciso levar em conta um ensino de argumentação contextualizado em situações comunicativas similares à realidade, relacionadas, de forma prática, a gêneros textuais.

Observando questões específicas do ensino médio, atividades que tenham como proposta levar o aluno a refletir e a discutir diferenças semânticas atreladas a diferenças sintáticas nos textos são fundamentais para trabalhar o “jogo de intenções” presente ao se construir um texto/discurso argumentativo. É uma forma de aprofundar os estudos sobre discurso e argumentação. É importante mostrar ao estudante que, em qualquer texto, mas principalmente no texto argumentativo, nenhuma escolha é gratuita. Ter essa consciência é um diferencial para entender e se posicionar no mundo.

Normalmente, como são as reações dos alunos a esse tipo de atividade?

Na verdade, as reações dos estudantes a esse tipo de trabalho vão depender de contextos e realidades variados. Isso depende do próprio histórico de formação da turma, de suas dificuldades com leitura e escrita, das realidades em que estão inseridas, de suas experiências sociais e linguísticas.

Cabe ao professor, antes de desenvolver um novo tópico ou um novo trabalho, realizar uma avaliação diagnóstica, uma sondagem, por meio de atividades escritas e orais em sala de aula.

Após isso, ele terá condições de realizar um plano de ensino-aprendizagem que vise trabalhar as dificuldades dos alunos e construir avanços em novas competências e habilidades. Avaliar o estágio da turma e fundamentar essa ponte para novos conhecimentos é importante para qualquer trabalho.

Porém, em relação especificamente ao conteúdo de argumentação, em condições gerais, é possível verificar que, se o trabalho for conduzido basicamente de forma mais dinâmica, trazendo textos da realidade próxima da turma e promovendo debates ou interações, as turmas normalmente ficam mais motivadas a construir e desenvolver ideias.

A quem se destina  “Argumentação no gênero carta de leitor de jornal e alguns encaminhamentos de ações para sala de aula”?

O livro é destinado, principalmente, a pesquisadores e professores na área de Língua Portuguesa, como também a estudantes de Letras, na graduação e na pós-graduação. Entretanto, também pode ser de interesse de estudiosos e profissionais das áreas de Linguagens e de Comunicação Social, em pontos específicos sobre a teoria da argumentação e sobre gênero textual.

O Blog da EdUERJ agradece a entrevista.

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