Representar e intervir: filosofia da ciência

Lançado originalmente em 1983, Representar e intervir, de Ian Hacking, tornou-se um divisor de águas em termos de estudos da filosofia da ciência. O livro teve a primeira edição brasileira publicada pela EdUERJ em 2012 e, em 2021, recebeu a sua segunda tiragem. O interesse permanente pela obra decorre do magnetismo que os argumentos apresentados desencadeiam e que atingem em cheio os estudiosos da ciência.  

Na publicação, o autor desmistifica conceitos equivocados a respeito do pensamento científico, tendo como norte a perspectiva da filosofia da ciência. Hacking procura demonstrar por que a ciência oferece o aparato necessário para a comprovação de seus sistemas. Mesmo uma teoria cuja experiência não pudesse ser produzida, por conta de sua periculosidade ou dos custos de sua produção, pode ser testada, “de modo que seja verificável a sua falsidade”.

O estudo de Hacking desenvolveu-se com o intuito de rebater algumas concepções que ficaram popularizadas no livro “A estrutura das revoluções científicas”, escrito décadas antes por Thomas Kuhn.  “O fato de que os cientistas são pessoas, e de que as sociedades científicas são sociedades, por si só, não coloca em dúvida a racionalidade científica”, observa Hacking sobre alguns dos pontos de vista de Kuhn.

O Livro da EdUERJ se divide em duas partes, que seguem literalmente o título: Representar e intervir. A  primeira aborda as teorias e a segunda, a experimentação. Hacking frisa que “os experimentos têm sido por demais negligenciados pelos filósofos da ciência”. Em sua tarefa de mostrar a força do realismo científico, Hacking dedica um capítulo a microscópios, artefato que chama de “maravilha das maravilhas”. Para ele, “você aprende a ver em um microscópio fazendo e não apenas olhando”. Há também um segmento dedicado a  Francis Bacon, considerado pelo autor, “o primeiro filósofo da ciência experimental”, por conta de suas metodologias, não obstante não ter feito nenhuma contribuição ao conhecimento científico.

As questões metafísicas estão presentes: “o que é o mundo? O que é a verdade? Que tipo de coisas existem no mundo?” São indagações que transitam dentro do realismo científico e que servem para que Hacking organize tópicos introdutórios à filosofia da ciência. “Representar e Intervir” é um compêndio de reflexões que serve a cientistas e historiadores e filósofos da ciência.

A obra, que saiu com tradução de Pedro Rocha de Oliveira e revisão técnica de Antonio Augusto Passos Videira,  é considerado um marco da origem do que se convencionou denominar “filosofia do experimento”, além de um clássico da bibliografia da filosofia da ciência, influenciando a agenda filosófica e as experimentações científicas posteriores.

Não por acaso em um cenário em que subitamente se veem tantas tentativas de relativizar o valor do conhecimento científico, esse livro continua a se impor, principalmente, pela coerência e contundência.

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