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Professor Gustavo Bernardo fala sobre “O cortiço”

Leitura indicada para o Vestibular 2027 da UERJ, “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, recebeu uma versão pela coleção EdUERJ de Bolso, série vestibular. O Blog da EdUERJ conversou com o professor Gustavo Bernardo, editor executivo da EdUERJ, sobre a sua importância dessa obra para a literatura brasileira. Ele é autor do texto de apoio que integra a edição

Blog: Publicar O Cortiço pela coleção EdUERJ de Bolso faz parte de uma estratégia de lançar as leituras indicadas ao vestibular da UERJ que estão em domínio público ou foi uma opção editorial?
Gustavo: A articulação entre as unidades e os setores na universidade costuma ser, infelizmente, frágil e, na melhor das hipóteses, apenas ocasional. O vestibular da UERJ, realizado há décadas pelo Departamento de Seleção Acadêmica, é um bom exemplo dessa desarticulação. Apesar de ser hoje, a meu juízo, obviamente parcial, o melhor exame vestibular do país, principalmente depois da capitulação das universidades federais ao ENEM, o vestibular da UERJ é praticamente ignorado pelas diferentes unidades universitárias, tornando-se objeto de discussão somente para se reclamar da queda nos números de inscritos e de aprovados e então defender que a UERJ também se renda ao ENEM. Essa reclamação serve para que não se discutam e não se enfrentem razões muito mais graves, como currículos inchados e defasados, além de oferta de vagas bem maior do que a demanda dos candidatos. Desde 2017, no entanto, a relação entre o Departamento de Seleção Acadêmica e a EdUERJ tem sido constante e produtiva. A Editora da UERJ vem publicando os livros indicados para o vestibular da universidade que já estejam em domínio público, acompanhados, à guisa de posfácio, de um texto de apoio assinado sempre por um professor da UERJ. Já foram publicados: O alienista, de Machado de Assis; O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós; Quincas Borba, de Machado de Assis; Senhora, de José de Alencar; e O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Blog: Como você avalia a escolha desse livro para o vestibular da UERJ?
Gustavo: Quando o Departamento de Seleção Acadêmica resgatou a prática de indicar livros de ficção para o vestibular, como ocorre há décadas nos principais vestibulares do país, atendeu a uma sugestão do então Reitor da UERJ, professor Ruy Garcia Marques: fazer uma consulta pública através da Revista do Vestibular, para que os candidatos e os professores dos colégios de ensino médio votassem nessa consulta. A consulta tem sido um sucesso, gerando de dez a vinte mil acessos por ano, o que promove uma discussão muito interessante, tanto sobre a literatura quanto sobre o vestibular. A escolha, neste ano, de O Cortiço me parece especialmente instigante, porque o romance de Aluísio Azevedo tem sido trabalhado nas escolas há muito tempo, mas com ênfase no estudo das características do estilo de época conhecido como Realismo, ou Realismo-Naturalismo. A indicação do romance, neste ano de 2026, permite que novas discussões sejam abertas sobre a narrativa propriamente dita, com a tensão entre a denúncia social que ela propõe, ainda no século XIX, e as manifestações de racismo do próprio narrador .

Blog: Você escreveu o texto de apoio que integra o livro. A denúncia social proposta pela trama de “O Cortiço” mantém-se contundente ? Por quê?
Gustavo: O meu texto de apoio traz por título a pergunta: O Cortiço é racista? Nos termos do enredo, a resposta é negativa: praticamente todos os personagens do romance, negros e brancos, portugueses e brasileiros, se dão mal, à exceção do vilão, o português dono do cortiço. Nesse sentido, o romance de Aluísio Azevedo é, antes de tudo, ultra pessimista. Ele faz, sim, uma denúncia social bem contundente, mas não aponta nenhuma saída ou alternativa para a miséria, a exploração e a violência. A denúncia de Aluísio Azevedo, 135 anos depois da publicação do livro, ainda é válida – infelizmente. Racismo, machismo, homofobia e xenofobia: tudo o que lá estava, aqui continua. A questão do racismo, entretanto, é mais complexa, porque, ao mesmo tempo que o romance a denuncia, também manifesta racismo – por exemplo, na caracterização dos personagens negros e em algumas intervenções do narrador. Apesar dessa contradição, a solução final do romance é tão terrível quanto brilhante, desvelando a tragédia que nos afeta até os dias de hoje. Lembremos que a história foi publicada exatos dois anos depois da promulgação da Lei Áurea, abolindo a escravidão no Brasil. A maneira como a lei foi escrita, indenizando os proprietários dos escravos e não os próprios escravos, anunciava a dificuldade da sociedade de pelo menos reconhecer o seu crime contra a humanidade. A dificuldade desse reconhecimento perdura até o momento em que vivemos, mantendo os negros em situação inferior, tão inferior que, algumas vezes, parece que a escravidão não foi abolida, porque os capitães do mato ainda estão aqui, vestindo o uniforme da polícia militar.

Aluísio Azevedo faz com que João Romão devolva sua companheira e parceira, Bertoleza, à escravidão, o que a leva a se matar com a faca de cozinha. João Romão se esconde no canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos. Nesse momento, chega uma comissão de abolicionistas que lhe trazem o diploma de sócio benemérito. A última frase do romance é: “ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas”. Ainda não li denúncia melhor do que esta, a respeito da hipocrisia nacional.