{"id":11651,"date":"2015-10-07T19:08:15","date_gmt":"2015-10-07T19:08:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/?p=11651"},"modified":"2016-03-07T19:28:02","modified_gmt":"2016-03-07T19:28:02","slug":"marcelo-jacques-de-moraes-em-entrevista-sobre-christian-prigent","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/marcelo-jacques-de-moraes-em-entrevista-sobre-christian-prigent\/","title":{"rendered":"Marcelo Jacques de Moraes em entrevista sobre Christian Prigent"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><small>Marcelo Jacques de Moraes (\u00e0 esq,) e Christian Prigent (\u00e0 dir.) no Col\u00f3quio Internacional Poesia e Interfaces (2015).<\/small><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Marcelo Jacques de Moraes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do CNPq, apresenta uma trajet\u00f3ria acad\u00eamica orientada para a literatura francesa. Reconhecido\u00a0\u2013 com convites regulares para ministrar cursos\u00a0sobre tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria na\u00a0Universidade de Aix-Marseille e ganhador, duas vezes, da\u00a0bolsa para tradutores estrangeiros do Centro Nacional do Livro, \u00f3rg\u00e3o ligado ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a \u2013, \u00a0foi convidado a participar do col\u00f3quio, realizado no Centro Cultural Internacional de Cerisy-La-Salle em 2014, sobre Christian Prigent, autor sobre o qual escreveu ensaios publicados no Brasil e na Fran\u00e7a. Jacques de Moraes e Prigent estiveram juntos no lan\u00e7amento, realizado durante o Col\u00f3quio Internacional Poesia e Interfaces, de\u00a0<i>Christian Prigent por Marcelo Jacques de Moraes<\/i>, editado pela EdUERJ atrav\u00e9s da cole\u00e7\u00e3o <i>Ciranda da Poesia<\/i>.<\/p>\n<div><b>Como foi\u00a0o processo de escrita do livro <i>Christian Prigent por Marcelo Jacques de Moraes<\/i>?<\/b><\/div>\n<p>O primeiro livro que li de Prigent, no come\u00e7o dos anos 2000, foi uma colet\u00e2nea de ensaios intitulada <i>Salut les anciens, salut les modernes<\/i>, em que ele saudava, como aponta o t\u00edtulo, tanto poetas j\u00e1 inseridos na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria quanto poetas seus contempor\u00e2neos, de uma gera\u00e7\u00e3o mais jovem do que ele, poetas nascidos nos anos 1960. A partir de ent\u00e3o, comecei a trabalhar sistematicamente com ele em meus cursos de poesia francesa na universidade. Paralelamente aos textos de reflex\u00e3o te\u00f3rica e cr\u00edtica, fui descobrindo sua obra po\u00e9tica, que, da mesma maneira, dialoga sempre, e ao mesmo tempo, com as mais diversas tradi\u00e7\u00f5es e g\u00eaneros liter\u00e1rios. No ensaio para a Ciranda, procurei reconstituir a trajet\u00f3ria do poeta, desde os anos 1960, espelhando esse di\u00e1logo constante em sua obra entre a produ\u00e7\u00e3o propriamente liter\u00e1ria e a reflex\u00e3o te\u00f3rica e cr\u00edtica.<\/p>\n<div><b>Na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, lemos \u201cEm busca de uma l\u00edngua, contra a l\u00edngua, mas com a l\u00edngua, eis uma f\u00f3rmula que talvez sintetize com precis\u00e3o o que seja o trabalho po\u00e9tico de \u2013 e para \u2013 Christian Prigent.\u201d. Como essa perspectiva atravessa sua an\u00e1lise da obra de Prigent?<\/b><\/div>\n<div>Prigent trabalha todo o tempo a partir da perspectiva de que nossa experi\u00eancia do mundo \u00e9 atravessada primordialmente pela l\u00edngua, pelo corpo da l\u00edngua. Como ele costuma dizer, \u201ca l\u00edngua nunca dorme\u201d e, para fazer face aos \u201csaberes de \u00e9poca\u201d, aqueles que moldam nossa percep\u00e7\u00e3o das coisas, n\u00e3o h\u00e1 outra maneira a n\u00e3o ser trabalhar contra \u2013 mas sempre com \u2013 as l\u00ednguas que nos cercam. Assim, sem sair do franc\u00eas, Prigent deriva frequentemente, de maneira mais ou menos expl\u00edcita, mais ou menos par\u00f3dica, para l\u00ednguas ou dialetos mortos, arcaicos ou minorit\u00e1rios (o latim cl\u00e1ssico ou vulgar, o franc\u00eas antigo, o galo, o bret\u00e3o&#8230; ) ou contempor\u00e2neos (os diversos extratos da linguagem coloquial, o<i> verlan das cit\u00e9s<\/i> das grandes cidades francesas, os discursos estereotipados de classe, os jarg\u00f5es de linguagens t\u00e9cnicas, a l\u00edngua das mensagens SMS&#8230;), mas n\u00e3o sem retorc\u00ea-los ou reinvent\u00e1-los. Em minha apresenta\u00e7\u00e3o, tento mostrar como esse trabalho vai se encarnando em v\u00e1rios tipos de mat\u00e9ria verbal, culminando n\u00e3o apenas em poemas em versos, de grande rigor pl\u00e1stico e formal , mas tamb\u00e9m em prosas \u00a0\u2013 n\u00e3o menos sofisticadas formalmente \u2013 destinadas \u00e0s suas performances vocais.<\/div>\n<div>\n<p><b><b>Em conformidade com a tradi\u00e7\u00e3o da poesia francesa moderna, a obra de Prigent se inscreve na \u201ctens\u00e3o entre o lite<\/b><\/b><b>r\u00e1rio e o pol\u00edtico\u201d. Como essa dimens\u00e3o pol\u00edtica aparece na poesia de Prigent? Quais os principais pontos de sua problematiza\u00e7\u00e3o da literatura e da l\u00edngua materna?<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div>A\u00a0reflex\u00e3o e o trabalho de Prigent sobre a l\u00edngua s\u00e3o inevitavelmente pol\u00edticos na medida em que se contrap\u00f5em desde os primeiros<\/p>\n<figure id=\"attachment_11653\" aria-describedby=\"caption-attachment-11653\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-11653 size-medium\" src=\"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/8062790c-bb8d-4de7-a762-9d83287fd22f-225x300.jpg\" alt=\"8062790c-bb8d-4de7-a762-9d83287fd22f\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/8062790c-bb8d-4de7-a762-9d83287fd22f-225x300.jpg 225w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/8062790c-bb8d-4de7-a762-9d83287fd22f-100x133.jpg 100w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/8062790c-bb8d-4de7-a762-9d83287fd22f-184x245.jpg 184w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/8062790c-bb8d-4de7-a762-9d83287fd22f.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11653\" class=\"wp-caption-text\">Marcelo Jacques de Moraes, no Col\u00f3quio Internacional Poesia e Interfaces (2015).<\/figcaption><\/figure>\n<p>anos a toda a tradi\u00e7\u00e3o francesa que se quer destinada \u00e0 \u201craz\u00e3o clara\u201d e ao \u201cbelo estilo\u201d e que, assim, hierarquiza os extratos vivos da(s) l\u00edngua(s) do\u00a0presente e do passado. A literatura, nesse sentido, desperta a pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o e de deforma\u00e7\u00e3o da l\u00edngua materna, e a consci\u00eancia do poder que esta exerce sobre a experi\u00eancia da realidade.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div><b>Fale-nos um pouco da escrita \u201ccrispante\u201d ou \u201cencrespada\u201d de Prigent. Como o leitor pode entend\u00ea-la?<\/b><\/div>\n<div>Trata-se, justamente, da encena\u00e7\u00e3o desse processo do despertar para a concretude da experi\u00eancia do corpo, do mundo e da pr\u00f3pria linguagem, despertar que nunca \u00e9 pleno. Pois a experi\u00eancia, enquanto tal, nunca pode ser totalmente objetivada na l\u00edngua, ela nunca \u00e9 totalmente compartilh\u00e1vel. A escrita de Prigent traz sempre a marca desse confronto, dessa dificuldade.<\/div>\n<div><b>Prigent pensa o movimento vanguardista como a recusa da produ\u00e7\u00e3o industrial de seu tempo e da modernidade que o precedera e se academicizara. Como esse ideal atravessa sua obra po\u00e9tica e sua atua\u00e7\u00e3o na revista <i>TXT<\/i>, fundada por ele em 1969?<\/b><\/div>\n<div>A perspectiva da vanguarda \u2013 e da produ\u00e7\u00e3o de uma revista \u2013 est\u00e1 sempre ligada de alguma forma ao sentido comunitarista, de partilha de uma experi\u00eancia dalinguagem e do mundo. A experi\u00eancia da TXT foi perpassada por essa dimens\u00e3o paradoxal que atravessa grande parte dos movimentos de vanguarda, e que o pr\u00f3prio Prigent define assim, referindo-se \u00e0 revista: \u201cTrata-se de fazer comunidade daquilo que resiste com todas as for\u00e7as ao assentimento comunit\u00e1rio: cada um afirmando, pela crueza de um estilo, uma radical singularidade\u201d.<\/div>\n<div><b>Qual\u00a0seu poema favorito de Prigent e por qu\u00ea?<\/b><\/div>\n<div>Gosto de muitas coisas, e sua obra tem tantas nuances e varia\u00e7\u00f5es formais e tem\u00e1ticas que \u00e9 complicado escolher um s\u00f3 texto&#8230; Mas cito aqui um pequeno trecho do come\u00e7o de \u201cUma frase para minha m\u00e3e\u201d, de 1996, texto em que Prigent mobiliza blocos de sensa\u00e7\u00f5es afetivas e corporais a servi\u00e7o da inven\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica \u2013 e vice-versa:<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<blockquote>\n<div>\n<p>\u00a0[&#8230;] embolo minha pelezinha de galinha nesse\u00a0come\u00e7o quase absoluto quest\u00e3o dissoluto, minha\u00a0m\u00e3e, eu me lembro, foi como uma ratoeira de\u00a0mat\u00e9ria erot\u00edfera, quando digo minha m\u00e3e tenho\u00a0nos dentes palavras doces e mordentes, contudo\u00a0n\u00e3o que ela o fosse, ela, na verdade, que ela\u00a0fosse doce de morder ou que tivesse dentes\u00a0amargos e \u00e1vidos prontos para ferir o cora\u00e7\u00e3o\u00a0que crescia em cancro na minha carne, minha\u00a0m\u00e3e \u00e9 mais o nome de mim quando n\u00e3o sei,\u00a0enfim, \u00e9 frequente, minha m\u00e3e, de mim o que\u00a0fazer, minha m\u00e3e, n\u00e3o digo aquela que de fato me meteu no mundo de fato, tamb\u00e9m n\u00e3o falo das ameixas e da manteiga do nada que me enche a cabe\u00e7a quando dormindo fa\u00e7o meu com\u00e9rcio pr\u00f3spero com minhas parceiras d\u2019imagim\u00e3e, quando digo minha m\u00e3e, falo de tudo que faz que se habite a carne aqui embaixo na terra como as outras carnes, mas com palavras, \u00e9 isso que lhe d\u00e1, \u00e0 carne, nervo, minha m\u00e3e \u00e9 a bola que tenho na boca e mesmo quando me assoo, n\u00e3o sai f\u00e1cil, minha m\u00e3e \u00e9 a carca\u00e7a em fio de ferro queme faz ficar de p\u00e9 sobre a terra [&#8230;]<\/p>\n<figure id=\"attachment_11654\" aria-describedby=\"caption-attachment-11654\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-11654 size-full\" src=\"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/f9a36b7e-b8e6-4f8e-8af8-7699d61135db.jpg\" alt=\"f9a36b7e-b8e6-4f8e-8af8-7699d61135db\" width=\"640\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/f9a36b7e-b8e6-4f8e-8af8-7699d61135db.jpg 640w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/f9a36b7e-b8e6-4f8e-8af8-7699d61135db-500x363.jpg 500w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/f9a36b7e-b8e6-4f8e-8af8-7699d61135db-100x73.jpg 100w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/f9a36b7e-b8e6-4f8e-8af8-7699d61135db-184x134.jpg 184w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/f9a36b7e-b8e6-4f8e-8af8-7699d61135db-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11654\" class=\"wp-caption-text\">Marcelo Jacques de Moraes (\u00e0 esq.) e Christian Prigent (\u00e0 dir.), em praias cariocas (2015).<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entrevista concedida a Thayssa Martins, graduanda de Letras \u2013 Ingl\u00eas\/Literaturas na UERJ e bolsista de extens\u00e3o da Rede de A\u00e7\u00f5es Comunicacionais da Editora da UERJ.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Jacques de Moraes (\u00e0 esq,) e Christian Prigent (\u00e0 dir.) no Col\u00f3quio Internacional Poesia e Interfaces (2015). &nbsp; Marcelo Jacques de Moraes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do CNPq, apresenta uma trajet\u00f3ria acad\u00eamica orientada para a literatura francesa. 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