{"id":12133,"date":"2016-05-16T13:38:47","date_gmt":"2016-05-16T16:38:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/?p=12133"},"modified":"2016-05-16T14:09:52","modified_gmt":"2016-05-16T17:09:52","slug":"entrevista-com-a-professora-sonia-netto-salomao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/entrevista-com-a-professora-sonia-netto-salomao\/","title":{"rendered":"Entrevista com a professora Sonia Netto Salom\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p>A professora Sonia Netto Salom\u00e3o lan\u00e7ou neste ano, pela EdUERJ, o livro <em>Machado de Assis e o c\u00e2none ocidental: itiner\u00e1rios de leitura<\/em>, no qual destaca\u00a0a rela\u00e7\u00e3o entre o grande escritor brasileiro e a cultura italiana. O t\u00edtulo tamb\u00e9m ser\u00e1 lan\u00e7ado na It\u00e1lia, no dia 24 de maio, em Roma, no Audit\u00f3rio do Centro Cultural Brasil-It\u00e1lia. A professora conversou com o nosso blog sobre seu livro.<\/p>\n<p><strong>Como foi o processo de pesquisa para escrever \u201cMachado de Assis e o c\u00e2none ocidental\u201d? \u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Este livro nasceu lentamente e possui tr\u00eas eixos de investiga\u00e7\u00e3o: o da experi\u00eancia com os cursos de tradu\u00e7\u00e3o, quando examinei, confrontando v\u00e1rias vers\u00f5es, que modo Machado foi traduzido na It\u00e1lia.<!--more--> \u00c9 surpreendente constatar que ele foi traduzido desde 1928 (<em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas d<\/em><em>e Br\u00e1s Cubas<\/em>), embora <em>Dom Casmurro<\/em> j\u00e1 tivesse sido traduzido em S\u00e3o Paulo em 1914 por Antonio Piccarollo (jornalista e pol\u00edtico fundador do Partido Socialista Italiano e, na cidade paulista, de in\u00fameros jornais, figurando tamb\u00e9m como um dos fundadores da Faculdade de Letras e Filosofia, onde ensinou Sociologia). Personagem este que, por si s\u00f3, nos d\u00e1 a dimens\u00e3o da presen\u00e7a italiana e do seu interc\u00e2mbio com a cultura brasileira. Percebi, tamb\u00e9m, em cursos espec\u00edficos de tradu\u00e7\u00e3o, que Machado estava entre os mais preparados tradutores de l\u00edngua portuguesa para a vers\u00e3o de Dante, feita por ele em tercetos, quando na \u00e9poca se traduzia s\u00f3 em prosa; e que ele conhecia muito bem Leopardi ao qual teria chegado pelo estudo da s\u00e1tira menipeia e de Luciano, em particular, cujas s\u00e1tiras eram igualmente apreciadas pelo poeta italiano. Aqui abriu-se todo um cap\u00edtulo ao qual dediquei 200 p\u00e1ginas e que fala, tamb\u00e9m, de como Machado incorporou temas da literatura e da \u00f3pera italiana, por exemplo. Este cap\u00edtulo concentra muito trabalho de pesquisa e de elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p>Mas, na verdade, havia uma \u201cfam\u00edlia\u201d alargada de escritores frequentada por Machado, muitos dos quais j\u00e1 tratados em estudos espec\u00edficos em v\u00e1rios trabalhos de outros estudiosos. Neste segundo eixo, que constitui o primeiro cap\u00edtulo do livro, o meu interesse era o de analisar o m\u00e9todo de trabalho de Machado. Compreender como a an\u00e1lise cr\u00edtica se somava ao ludismo dos seus textos; perceber por que Machado era t\u00e3o particular e, ao mesmo tempo, universal, e porque ele desafiava o cr\u00edtico ou a cr\u00edtica, com aquela estrat\u00e9gia do jogador que envolve o seu parceiro de jogo, principalmente quando blefa. Daqui nasceu o t\u00edtulo do livro: da compreens\u00e3o que Machado enfrentou v\u00e1rios modelos can\u00f4nicos, dialogando com eles, num processo de aceita\u00e7\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o, reescritura, e assim por diante. Ele mesmo se define um \u201cruminante\u201d e, desse modo, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o perceber um processo antropof\u00e1gico, como o detectado pelos modernsitas brasileiros, e que, no fim, identifica a nossa cultura p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p>Lendo os v\u00e1rios modelos, cheguei a uma carta do Pseudo Hip\u00f3crates com todos os ingredientes do \u201cAlienista\u201d e do seu riso de Dem\u00f3crito. Com Vieira, eu havia enfrentado as \u201cL\u00e1grimas de Her\u00e1clito\u201d ( S. Paulo, Ed. 34, 2001); com Machado, enfrentei o outro elemento de um antigo <em>topos<\/em>. Este o terceiro eixo, que inclui a l\u00edngua liter\u00e1ria de Machado, muito esquecida, e que se deve examinar de acordo com o projeto est\u00e9tico do autor de <em>Dom Casmurro.<\/em><\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os aspectos principais abordados pela obra?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade s\u00e3o muitos, embora os principais estejam nos tr\u00eas eixos apontados: o pressuposto te\u00f3rico do livro; Machado devorador antrop\u00f3fago <em>avant la lettre, <\/em>mas muito sofisticado, configurado pela discuss\u00e3o dos modelos com os quais entra em contato, num processos de aceita\u00e7\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o, mistura, adapta\u00e7\u00e3o. A ironia como recurso ret\u00f3rico que permite o estabelecimento de uma dist\u00e2ncia cr\u00edtica e que caracterizar\u00e1 o projeto est\u00e9tico-ideol\u00f3gico do autor. A rela\u00e7\u00e3o com a cultura italiana a partir de temas, <em>topoi<\/em>, lendas, obras can\u00f4nicas, da leitura italiana de Shakespeare que devolve o texto ingl\u00eas (traduzido em italiano) para o p\u00fablico carioca, sem passar pela dilui\u00e7\u00e3o das tradu\u00e7\u00f5es do neoclassicismo franc\u00eas a partir das quais a vers\u00e3o para o portugu\u00eas de Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es se fez.<\/p>\n<p>Neste \u00e2mbito, creio que uma poss\u00edvel contribui\u00e7\u00e3o esteja no aspecto metodol\u00f3gico que utilizei na abordagem da \u00f3pera <em>Otelo, <\/em>no <em>Dom Casmurro, <\/em>a partir de dois versos que s\u00f3 podiam ser do libreto da \u00f3pera de Boito-Verdi. Chamei muito a aten\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, para palavras-chaves da obra machadiana como o l\u00e9xico da melancolia, da casmurrice, da trai\u00e7\u00e3o, bebidas em v\u00e1rias fontes, e assim por diante.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-12135 size-thumbnail alignleft\" src=\"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016-184x276.jpg\" alt=\"Foto 2016\" width=\"184\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016-184x276.jpg 184w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016-scaled-500x750.jpg 500w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016-scaled-1200x1800.jpg 1200w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016-200x300.jpg 200w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016-683x1024.jpg 683w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/Foto-2016-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 184px) 100vw, 184px\" \/><\/a>O livro \u00e9 resultado de uma parceira tamb\u00e9m com a Sapienza, Universidade de Roma 1. Por favor, conte como se articulou essa parceria, que possibilitou a edi\u00e7\u00e3o do livro.<\/strong><\/p>\n<p>Fui professora da UERJ e atualmente sou professora da Sapienza. H\u00e1 vinte anos, a partir da Reitoria do Prof. Ant\u00f4nio Celso Alves Pereira, h\u00e1 um acordo de colabora\u00e7\u00e3o da UERJ com a Sapienza, Universidade de Roma, levado adiante pelos professores Silvano Peloso (Sapienza) e Jos\u00e9 Luis Jobim (UERJ), com minha pessoal colabora\u00e7\u00e3o, assim como de outros colegas das duas universidades. A colabora\u00e7\u00e3o se estendeu ao longo dos anos, realizando importantes congressos internacionais e relevantes publica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e culminou com a funda\u00e7\u00e3o da Cole\u00e7\u00e3o Brasil \u2013It\u00e1lia da EdUERJ, h\u00e1 aproximadamente 10 anos, que objetiva confrontar paradigmas cr\u00edticos e interdisciplinares de temas relativos ao Brasil e \u00e0 It\u00e1lia, publicando estudos e tradu\u00e7\u00f5es relevantes. Duzentas p\u00e1ginas deste volume s\u00e3o dedicados \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de Machado de Assis com a cultura italiana a partir, inclusive, da reconstru\u00e7\u00e3o do contexto italiano do Rio de Janeiro no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como seria perceber a obra de Machado de Assis como um grande hipertexto (como \u00e9 sugerido na contracapa)?<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de hipertexto foi proposto por Theodor H. Nelson, pela primeira vez, em 1965, numa comunica\u00e7\u00e3o apresentada \u00e0 Confer\u00eancia Nacional da Association for Computing Machinery, nos Estados Unidos. O hipertexto \u00e9 uma forma n\u00e3o linear de apresentar a informa\u00e7\u00e3o textual, uma esp\u00e9cie de texto em paralelo, que se encontra dividido em unidades b\u00e1sicas, entre as quais se estabelecem elos conceituais. \u00c9 o princ\u00edpio que regula modernamente os c\u00f3digos digitais armazenados no disco r\u00edgido do computador e na sua mem\u00f3ria operativa. Depende de quem opera usar os elos conceituais que se estabelecem entre as unidades de informa\u00e7\u00e3o ou grupos de unidades que podem distribuir-se e circular de diversas formas. \u00c9 este, igualmente, o caso da internet, que utiliza a linguagem HTML (Hyper Text Markup Language), que permite descobrir a informa\u00e7\u00e3o disseminada num sistema em que todos podem comunicar com todos, em sincronia.<\/p>\n<p>Gerard Genette prop\u00f4s, no seu <em>Palimpsestes, La litt\u00e9rature au second degr\u00e9<\/em> (1982), um conceito diverso para o termo hipertexto, embora tamb\u00e9m ele siga a ideia de texto em paralelo. Para Genette, o hipertexto resulta de uma transforma\u00e7\u00e3o premeditada de um texto preexistente. \u00c9 o caso da par\u00f3dia, por exemplo. Para o cr\u00edtico franc\u00eas, a hipertextualidade \u00e9 uma das cinco possibilidades de transtextualidade, ou seja, de \u201ctranscend\u00eancia textual do texto\u201d. Esta ideia parece-nos mais pr\u00f3xima das caracter\u00edsticas gerais do hipertexto, que \u00e9, acima de tudo, uma possibilidade universal de di\u00e1logo de um texto original com outros textos ocultos, mas inter-relacionados e dispon\u00edveis para que se estabele\u00e7am rela\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas de significa\u00e7\u00e3o. O conceito de hipertexto genettiano est\u00e1, contudo, preso \u00e0 ideia do palimpsesto, ou seja, \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de um texto que \u00e9 sempre absorvido e apagado premeditadamente por outro, ao passo que o conceito eletr\u00f4nico de hipertexto pressup\u00f5e um di\u00e1logo intertextual, sem que nenhuma forma textual apague necessariamente qualquer outra que com ela se relacione. Na verdade, o modelo machadiano tamb\u00e9m \u00e9 uma mistura dessas duas concep\u00e7\u00f5es. Por um lado, o seu texto \u00e9 um palimpsesto, na medida em que se apresenta como um texto \u201capagado\u201d ou subterr\u00e2neo; na maioria dos casos, permite ao leitor a sua recupera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das rasuras, das marcas e das pistas intertextuais. Por outro lado, Machado desconstr\u00f3i os modelos, quer pela fus\u00e3o de um com o outro ou outros, quer pela constru\u00e7\u00e3o pelo avesso. Al\u00e9m disso, o narrador machadiano diverte-se em comentar os processos que utiliza, indicando ele pr\u00f3prio os seus modelos.<\/p>\n<p><strong>Sabe-se que ensina teoria da tradu\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia. De que modo estes estudos influenciaram ou n\u00e3o a sua abordagem?<\/strong><\/p>\n<p>Deve-se a Roman Jakobson, num ensaio pioneiro, a aten\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 natureza intertextual da tradu\u00e7\u00e3o. Jakobson chama a aten\u00e7\u00e3o para a reformula\u00e7\u00e3o intralingu\u00edstica, presente na par\u00e1frase, na tradu\u00e7\u00e3o interlingu\u00edstica propriamente dita e na transmuta\u00e7\u00e3o intersemi\u00f3tica, com mudan\u00e7a de c\u00f3digos (da literatura ao cinema e assim por diante). Nesse quadro te\u00f3rico, o cr\u00edtico israelita Itamar Even-Zoar introduziu a ideia de polissistema, no qual uma pluralidade de literaturas (popular, de elite, nacional, folcl\u00f3rica, traduzida) vive de correla\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas, entrecruzando rela\u00e7\u00f5es diacr\u00f4nicas e sincr\u00f4nicas, tanto mais din\u00e2micas quanto mais o sistema resulta jovem, perif\u00e9rico ou temporaneamente em crise. Este \u00e9 o caso da situa\u00e7\u00e3o vivida por Machado de Assis no s\u00e9culo XIX brasileiro, quando o sistema nacional se estava afirmando. Machado, ele mesmo, foi um incans\u00e1vel tradutor daqueles autores cujos modelos, seguramente, o interessavam diretamente. Por isso, traduziu: Lamartine, Alexandre Dumas (filho), Chateaubriand, Racine, Moli\u00e8re, Victor Hugo, Beaumarchais, Shakespeare, Dickens, Edgar Allan Poe, Schiller, Heine, Dante.<\/p>\n<p>O outro \u00e2mbito de aprofundamento atual dos estudos intertextuais diz respeito \u00e0quele relativo ao interculturalismo e, em particular, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com as literaturas p\u00f3s-coloniais. Passa a ser mais clara a \u201capropria\u00e7\u00e3o\u201d realizada no \u00e2mbito do necess\u00e1rio di\u00e1logo dessas culturas com o c\u00e2none ocidental. Apropria\u00e7\u00e3o, a qual acaba por gerar um processo de hibridismo em que atua a tradu\u00e7\u00e3o, compreendida na sua fun\u00e7\u00e3o mais ampla de\u00a0\u00a0 confronto de c\u00f3digos lingu\u00edsticos e culturais; ou seja, tradu\u00e7\u00e3o como transplante de modelos. Partindo do conceito desenvolvido anteriormente, hipertextualidade define a rela\u00e7\u00e3o de imita\u00e7\u00e3o ou de transforma\u00e7\u00e3o de uma obra anterior, ou hipotexto, em uma posterior ou hipertexto, com a par\u00f3dia, o travestimento, o pastiche, a transposi\u00e7\u00e3o e a continua\u00e7\u00e3o. O outro \u00e2mbito de aprofundamento atual dos estudos intertextuais diz respeito \u00e0quele relativo ao interculturalismo e, em particular, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com as literaturas p\u00f3s-coloniais. Passa a ser mais clara a \u201capropria\u00e7\u00e3o\u201d realizada no \u00e2mbito do necess\u00e1rio di\u00e1logo dessas culturas com o c\u00e2none ocidental. Apropria\u00e7\u00e3o a qual acaba por gerar um processo de hibridismo em que atua a tradu\u00e7\u00e3o, compreendida na sua fun\u00e7\u00e3o mais ampla de confronto de c\u00f3digos lingu\u00edsticos e culturais; ou seja, tradu\u00e7\u00e3o como transplante de modelos. A partir das observa\u00e7\u00f5es feitas, esperamos que seja mais clara a posi\u00e7\u00e3o da obra machadiana no contexto p\u00f3s-colonial brasileiro. Machado advertia a necessidade de preencher lacunas, de confrontar-se, necessariamente, com modelos estrangeiros. Naturalmente, tendo vivido a safra rom\u00e2ntica e o susto realista-naturalista, tentava construir um m\u00e9todo pr\u00f3prio que, praticamente, revelou ao cr\u00edtico nas suas obras. N\u00e3o h\u00e1, no entanto, como deixar de refletir sobre o processo machadiano em rela\u00e7\u00e3o a um conceito cr\u00edtico t\u00e3o importante para a literatura brasileira: a antropofagia cultural.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um cap\u00edtulo sobre a ironia no texto de Machado de Assis, que \u00e9 uma das caracter\u00edsticas mais fortes do autor. Gostaria que explicasse o impacto desse recurso para a obra de Machado de Assis e sob qual \u00f3tica voc\u00ea tratou o tema.<\/strong><\/p>\n<p>O cap\u00edtulo II, <em>Machado l\u00fadico: os percursos da ironia, <\/em>procura definir a articula\u00e7\u00e3o da ironia na obra machadiana. A ironia socr\u00e1tica que \u00e9, para mim, o m\u00e9todo machadiano, realiza um processo de indaga\u00e7\u00e3o em que as perguntas s\u00e3o arguta e sapientemente feitas de modo a se obter o desvelamento da inautenticidade dos discursos. Podemos dizer, portanto, que o pr\u00f3prio discurso filos\u00f3fico prov\u00e9m desse modo c\u00f4mico de propiciar o nascimento do pensamento e da reflex\u00e3o que, uma vez originados, cessam de ser c\u00f4micos para entrar no dom\u00ednio do s\u00e9rio. A ironia socr\u00e1tica pode ser definida, desse modo, como um jogo pedag\u00f3gico que gera a <em>paideia<\/em> (a educa\u00e7\u00e3o). Nas v\u00e1rias e eruditas considera\u00e7\u00f5es por que tem passado, a ironia socr\u00e1tica se distingue, justamente, pelo car\u00e1ter complexo que a identifica, uma vez que o que se diz \u00e9, e ao mesmo tempo n\u00e3o \u00e9, o que se entende. Neste cap\u00edtulo encontrei uma chave de leitura preciosa para \u201cO Alienista.<\/p>\n<p><strong>Muitos leitores se perguntam como Machado desenvolveu essa verve. Para alguns, a ironia de Machado de Assis poderia ser explicada como uma consequ\u00eancia direta de seu ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade brasileira da \u00e9poca, enquanto para outros \u00e9 uma caracter\u00edstica inata de sua personalidade, um ingrediente de teor psicol\u00f3gico. Como voc\u00ea v\u00ea essas posi\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>A ironia \u00e9 a ess\u00eancia das grandes intelig\u00eancias, como a de Machado: ironia e autoironia. Se era ou n\u00e3o inclina\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter, \u00e0 parte algum depoimento pessoal dele, que n\u00e3o conhe\u00e7o, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 relevante do ponto de vista da sua obra. O que importa, do ponto de vista cr\u00edtico-liter\u00e1rio e te\u00f3rico, \u00e9 desvelar os mecanismos que utilizou para cri\u00e1-la e a que fun\u00e7\u00e3o ela servia. O discurso ir\u00f4nico serve, como visto acima, para desmascarar, criticar, revelar sub-repticiamente o que n\u00e3o pode ser dito diretamente. Tudo o que Machado fez ao denunciar o patriarcalismo, a entrada do capital no meio de estruturas arcaicas no pa\u00eds, ao perscrutar o drama psicossocial de agregados no sistema olig\u00e1rquico, ao denunciar o vazio melanc\u00f3lico das classes abastadas num sistema injusto e alienado que resiste ainda hoje nos v\u00edcios da corrup\u00e7\u00e3o e da pretens\u00e3o de impunidade. O riso machadiano \u00e9 mais s\u00e9rio do que o tom gracioso da sua narrativa pode levar a pensar.<\/p>\n<p><strong>Um dos conceitos trabalhados no livro \u00e9 o da l\u00edngua liter\u00e1ria de Machado de Assis. Gostaria que falasse sobre este conceito e a forma como essa l\u00edngua liter\u00e1ria se diferiria ou se aproximaria de outros autores de sua \u00e9poca.<\/strong><\/p>\n<p>No nosso entender a l\u00edngua liter\u00e1ria de Machado de Assis deve ser compreendida como parte do projeto global da sua obra, manifestando-se na enuncia\u00e7\u00e3o como um sistema de linguagem. Este sistema, por sua vez, articula-se com o universo liter\u00e1rio mais amplo do c\u00e2none brasileiro e ocidental, num determinado contexto hist\u00f3rico-cultural. O Oitocentos brasileiro marcou-se por um dinamismo similar ao de outras l\u00ednguas modernas, no \u00e2mbito das mudan\u00e7as sociais e tecnol\u00f3gicas que caracterizaram o per\u00edodo; basta lembrarmos, respectivamente, as revolu\u00e7\u00f5es liberais de 1848 e o tel\u00e9grafo e o telefone. Entre os eventos hist\u00f3ricos locais de influ\u00eancia sobre a sociolingu\u00edstica do portugu\u00eas brasileiro est\u00e3o: a transmigra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, no \u00e2mbito das invas\u00f5es napole\u00f4nicas, com a imediata abertura dos portos \u00e0s na\u00e7\u00f5es amigas; a independ\u00eancia de Portugal, em 1822; a libera\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, em 1888; e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889. Em rela\u00e7\u00e3o a outro grande escritor seu contempor\u00e2neo, Alu\u00edzio de Azevedo, a l\u00edngua liter\u00e1ria dos dois autores diferem tanto quanto divergem os projetos est\u00e9tico-ideol\u00f3gicos de ambos. O processo de animaliza\u00e7\u00e3o ao qual submete os moradores <em>d\u2019O corti\u00e7o<\/em> (1890) leva o escritor maranhense \u00e0 descri\u00e7\u00e3o nua e crua que n\u00e3o era comum nos livros brasileiros da \u00e9poca. Ser\u00e1 envolvente e sensual, como os meneios da Rita baiana, ou plena de nojo e desprezo, como quando Jo\u00e3o Rom\u00e3o, j\u00e1 instalado na nova classe social, olha com desd\u00e9m o corti\u00e7o que o enriquecera. Ecos desta linhagem vamos encontrar em Jorge Amado, por exemplo. No <em>Quincas Borba<\/em> (1891), do mesmo per\u00edodo, mesmo se numa an\u00e1lise comparativa de ambos a partir de alguns temas que nortearam os debates \u2013 e as muitas pol\u00eamicas \u2013 entre os melhores intelectuais brasileiros do per\u00edodo, percebe-se que s\u00e3o inelutavelmente oriundos do mesmo fermento cultural, embora com escolhas diferentes no que se refere \u00e0 l\u00edngua. Comparei diversos trechos dos romances em quest\u00e3o. Mesmo o tema sexual, presente na obra machadiana na contradan\u00e7a de D. Fernanda e Maria Benedita, no <em>Quincas Borba, <\/em>merece outro tratamento lingu\u00edstico: mais sugestivo mas n\u00e3o menos forte, sendo capcioso, porque colocado em a\u00e7\u00e3o por uma senhora insuspeit\u00e1vel e com objetivos \u201cmaternos\u201d. Enquanto que a rela\u00e7\u00e3o entre a cocote L\u00e9onie e pombinha era mais previs\u00edvel e \u201cexplic\u00e1vel\u201d, segundo a ideologia social do momento.<\/p>\n<p><strong>Segundo o cap\u00edtulo III, \u201cMachado de Assis e a It\u00e1lia\u201d, o bruxo do Cosme Velho apenas come\u00e7ou a ser conhecido na It\u00e1lia, fora do c\u00edrculo dos estudiosos luso-brasileiros, muito recentemente e ainda de forma limitada. \u00a0Conte-nos sobre a rela\u00e7\u00e3o de Machado de Assis com a It\u00e1lia e sua literatura. Dos pa\u00edses europeus, \u00e9 com a It\u00e1lia que a obra de Machado de Assis dialoga mais fluentemente?<\/strong><\/p>\n<p>Machado dialogou com os principais nomes da cultura italiana e estudou a hist\u00f3ria romana de modo aprofundado. Nas tradu\u00e7\u00f5es que foram feitas na It\u00e1lia \u00e9 interessante notar nos pref\u00e1cios como os tradutores identificaram os autores europeus presentes na obra machadiana. L\u00e1 est\u00e3o franceses, ingleses e alem\u00e3es, mas tamb\u00e9m autores gregos e latinos bem conhecidos na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Machado acompanhou e viveu a presen\u00e7a italiana no Rio de Janeiro: no teatro, na \u00f3pera, nos jornais, nos movimentos de independ\u00eancia e de instaura\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica na It\u00e1lia. Cavour \u00e9 citado mais de uma vez na obra machadiana como s\u00edmbolo de obstina\u00e7\u00e3o, como no cap\u00edtulo IV das Mem\u00f3rias p\u00f3stumas,\u00a0 \u201cUma ideia fixa\u201d, em que o nosso autor busca exemplos humor\u00edsticos para sustentar a sua tese: \u201cDeus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. V\u00ea o Cavour; foi a ideia fixa da unidade italiana que o matou\u201d. Na ocasi\u00e3o do acordo levado adiante por Cavour com a Fran\u00e7a, contra o dom\u00ednio austr\u00edaco no norte da It\u00e1lia, Machado escreve no Correio Mercantil, em 10 de fevereiro de 1859, o poema <em>\u00c0 It\u00e1lia<\/em>. Em 25 de novembro de 1861, numa cr\u00f4nica do <em>Di\u00e1rio do Rio de Janeiro<\/em>, sob o pseud\u00f4nimo de Gil, o escritor carioca elogia o governo brasileiro por ter reconhecido sem delongas a unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia e demonstra conhecimento de causa, na sua exposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o resta d\u00favida que Machado estava inserido ainda no contexto em que as revistas, pelo seu car\u00e1ter mais popular de divulga\u00e7\u00e3o, inclusive em fun\u00e7\u00e3o das ilustra\u00e7\u00f5es que pouco a pouco passavam a fazer parte integrante da edi\u00e7\u00e3o, contribu\u00edam para a veicula\u00e7\u00e3o da imagem de um novo pa\u00eds, gra\u00e7as \u00e0s conquistas t\u00e9cnicas, tamb\u00e9m. Os italianos colaboraram com a tradi\u00e7\u00e3o da caricatura, da cr\u00edtica pol\u00edtica e do humor. Nesse espa\u00e7o, a literatura foi divulgada por meio das resenhas e da publica\u00e7\u00e3o, em forma de folhetim, de obras que seriam, a seguir, editadas em livro.<\/p>\n<p>Por outro lado, um estudioso do porte de Ruggero Jacobbi deixou, em 1961 (<em>Teatro in Brasile<\/em>), importante depoimento sobre machado de Assis:<\/p>\n<p>&#8220;Talvez os italianos n\u00e3o saibam ainda que o escritor verdadeiramente universal produzido pelo Brasil em toda a sua hist\u00f3ria \u00e9 Joaquim Maria Machado de Assis, o qual n\u00e3o \u00e9 apenas um dos cinco ou seis pontos mais altos atingidos ao longo da literatura de l\u00edngua portuguesa, mas \u00e9 o \u00fanico narrador sul-americano cujas obras maiores poderiam estar tranquilamente na mesma prateleira em que se conservam Stendhal, e Nievo, Gogol e Defoe, Merim\u00e9e e Manzoni. Tais obras \u2013 Dom Casmurro, Br\u00e1s Cubas (sic), a s\u00e9rie estupenda de contos \u2013 contradistinguem a onda de exuberan\u00e7a tropical da literatura \u00e0 qual pertencem, justamente com a sua concis\u00e3o, a sua lucidez, a sua ironia, o seu pessimismo racionalista; e superam num lance as tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es: rom\u00e2ntica, parnasiana, naturalista da poesia e da prosa que se sucederam no Brasil durante a longa vida do escritor&#8221;.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel perceber o impacto da literatura machadiana na cultura italiana? Existem marcas de sua influ\u00eancia nas obras de escritores italianos?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o. Ele \u00e9 conhecido por muito poucos fora do circuito universit\u00e1rio luso-brasileiro. Mas tem sido publicado por editoras que fogem ao circuito comercial e privilegiam autores de valor.<\/p>\n<p><strong>Como professora na It\u00e1lia, voc\u00ea v\u00ea o interesse de alunos pelas obras de Machado de Assis?<\/strong>Sim, depois que estudado e conhecido. Machado n\u00e3o \u00e9 um autor f\u00e1cil. Pode ser identificado com Manzoni, grande autor do oitocentos italiano, embora dele se distinga muito na segunda fase. Orientei muitas teses na It\u00e1lia sobre Machado e de uma delas saiu uma nova tradu\u00e7\u00e3o para o <em>Quincas Borba<\/em>, em 2009 (Viterbo, Sette Citt\u00e0).<\/p>\n<p><strong>Ex-professora da UFRJ e da UERJ, Sonia Netto Salom\u00e3o ensina atualmente na Sapienza, Universidade de Roma, e j\u00e1 publicou diversos ensaios e estudos sobre a hist\u00f3ria da l\u00edngua portuguesa, entre os quais, os volumes <em>Da palavra ao texto, estudos de lingu\u00edstica, filologia, literatura<\/em> (Viterbo, Sette Citt\u00e0, 2007, com reedi\u00e7\u00f5es) e <em>A l\u00edngua portuguesa nos seus percursos multiculturais <\/em>(Roma, Nuova Cultura, 2012). Al\u00e9m disso, coordenou a tradu\u00e7\u00e3o de Quincas Borba, de Machado de Assis (Viterbo, Sette Citt\u00e0, 2009), e integra o conselho editorial da Cole\u00e7\u00e3o Brasil-It\u00e1lia, da Editora da UERJ.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-10779\" src=\"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-688x1024.jpg\" alt=\"Untitled-1\" width=\"269\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-688x1024.jpg 688w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-500x744.jpg 500w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-202x300.jpg 202w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-184x274.jpg 184w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-768x1143.jpg 768w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-8x12.jpg 8w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado-100x149.jpg 100w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/CapaMachado.jpg 834w\" sizes=\"(max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A professora Sonia Netto Salom\u00e3o lan\u00e7ou neste ano, pela EdUERJ, o livro Machado de Assis e o c\u00e2none ocidental: itiner\u00e1rios de leitura, no qual destaca\u00a0a rela\u00e7\u00e3o entre o grande escritor brasileiro e a cultura italiana. O t\u00edtulo tamb\u00e9m ser\u00e1 lan\u00e7ado na It\u00e1lia, no dia 24 de maio, em Roma, no Audit\u00f3rio do Centro Cultural Brasil-It\u00e1lia. A professora conversou com o nosso blog sobre seu livro. Como foi o processo de pesquisa para escrever \u201cMachado de Assis e o c\u00e2none ocidental\u201d? \u00a0 \u00a0 Este livro nasceu lentamente e possui tr\u00eas eixos de investiga\u00e7\u00e3o: o da experi\u00eancia com os cursos de tradu\u00e7\u00e3o,\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":12134,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"editor_plus_post_options":"{}","editor_plus_copied_stylings":"{}","footnotes":""},"categories":[202],"tags":[248,327,244,323],"class_list":["post-12133","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-italia","tag-lancamento","tag-machado-de-assis","tag-sonia-netto-salomao"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":5}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12133"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12133\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}