{"id":16905,"date":"2018-10-19T14:55:12","date_gmt":"2018-10-19T17:55:12","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=16905"},"modified":"2018-10-19T14:55:12","modified_gmt":"2018-10-19T17:55:12","slug":"por-um-indio-longe-do-estereotipo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/por-um-indio-longe-do-estereotipo\/","title":{"rendered":"Por um \u00edndio longe do estere\u00f3tipo"},"content":{"rendered":"<p>Sem Vieira nem Pombal: \u00edndios na Amaz\u00f4nia do s\u00e9culo XIX, de M\u00e1rcio Couto Henrique, lan\u00e7amento da Editora da UERJ, certamente vai surpreender aqueles que enxergam a etnia ind\u00edgena sob o v\u00e9u do estere\u00f3tipo racial.  Da pesquisa, emerge o \u00edndio como indiv\u00edduo que elabora suas estrat\u00e9gias de embate ou pol\u00edticas de alian\u00e7a, em momentos marcantes da sociedade brasileira. A iniciativa da pesquisa sobressai-se ainda mais se levarmos em conta a lacuna sobre o tema na maior parte dos livros de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O panorama da pesquisa \u00e9 a Amaz\u00f4nia do s\u00e9culo XIX, per\u00edodo posterior ao da atua\u00e7\u00e3o do padre Ant\u00f4nio Vieira ou do Marqu\u00eas de Pombal, personagens que dialogavam com a causa ind\u00edgena. Na \u00e9poca, \u201cos mission\u00e1rios tratavam os \u00edndios como crian\u00e7as que precisavam ser protegidas ou incapazes de superar a estaca zero da evolu\u00e7\u00e3o sem a prote\u00e7\u00e3o dos civilizados\u201d. Os cap\u00edtulos demonstram uma realidade divergente do que supunham esses religiosos.<\/p>\n<p>O autor traz \u00e0 tona fatos como a participa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios Munduruku na condi\u00e7\u00e3o de aliados das tropas legalistas no epis\u00f3dio conhecido como Cabanagem. Essa revolta, ocorrida entre 1835 e 1840 na prov\u00edncia do Gr\u00e3o-Par\u00e1, causou mais de 30 000 mortes e in\u00fameros estragos. A parceria com os \u00edndios foi vital para que pudesse ser retomada a atividade dos mission\u00e1rios. <\/p>\n<p>Em outro cap\u00edtulo \u00e9 enfocada a rea\u00e7\u00e3o dos nativos \u00e0s tentativas de catequese, conduzidas muitas vezes a partir de uma aproxima\u00e7\u00e3o amistosa, com oferecimentos de presentes e a designa\u00e7\u00e3o de um respons\u00e1vel pela cristianiza\u00e7\u00e3o da tribo. Havia tamb\u00e9m o interesse de tentar intervir na distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das tribos. A proposta de realocamento atendia \u00e0 ideia de uma futura inser\u00e7\u00e3o dos nativos como m\u00e3o de obra barata. Outra motiva\u00e7\u00e3o era o fato de os \u00edndios serem considerados amea\u00e7a \u00e0 navega\u00e7\u00e3o em determinadas \u00e1reas. Contrariando a regra, em algumas ocasi\u00f5es os colonizadores \u00e9 que foram solicitados a possibilitar a mudan\u00e7a. Por exemplo,  como procedeu membros da tribo Pariqui, ansiosos por afastarem seu local de habita\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o dominada por uma tribo de costumes antrop\u00f3fagos. <\/p>\n<p>O ponto de vista dos ind\u00edgenas foi investigado, por meio de relatos, livros e uma documenta\u00e7\u00e3o composta principalmente por relat\u00f3rios dos presidentes das prov\u00edncias, correspond\u00eancia dos mission\u00e1rios e obras dos viajantes.  O desafio maior foi reconhecer a perspectiva ind\u00edgena, \u00e0s vezes presente apenas nas entrelinhas, principalmente quando se trata de relatos oficiais. <\/p>\n<p>O autor aponta para a necessidade de se superar a concep\u00e7\u00e3o de que os \u201c\u00edndios foram v\u00edtimas indefesas da coloniza\u00e7\u00e3o ou assistiram passivamente \u00e0 a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos europeus\u201d. Essa suposta inferioridade ou incapacidade deixou marcas e at\u00e9 hoje encontra ecos em determinados setores da nossa sociedade, justificando viol\u00eancias ou diretrizes autorit\u00e1rias contra os \u00edndios que atualmente sobrevivem no (ao?) Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem Vieira nem Pombal: \u00edndios na Amaz\u00f4nia do s\u00e9culo XIX, de M\u00e1rcio Couto Henrique, lan\u00e7amento da Editora da UERJ, certamente vai surpreender aqueles que enxergam a etnia ind\u00edgena sob o v\u00e9u do estere\u00f3tipo racial. Da pesquisa, emerge o \u00edndio como indiv\u00edduo que elabora suas estrat\u00e9gias de embate ou pol\u00edticas de alian\u00e7a, em momentos marcantes da sociedade brasileira. A iniciativa da pesquisa sobressai-se ainda mais se levarmos em conta a lacuna sobre o tema na maior parte dos livros de hist\u00f3ria. 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