{"id":24372,"date":"2021-07-12T17:55:34","date_gmt":"2021-07-12T20:55:34","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=24372"},"modified":"2021-07-14T00:13:19","modified_gmt":"2021-07-14T03:13:19","slug":"entrevista-com-a-professora-graziela-scheffer-machado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/entrevista-com-a-professora-graziela-scheffer-machado\/","title":{"rendered":"Entrevista com a professora Graziela Scheffer Machado"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Servi\u00e7o Social na cad\u00eancia da mem\u00f3ria das pioneiras cariocas&#8221; (EdUERJ, 2021), de Graziela Scheffer Machado, \u00e9 um t\u00edtulo que tem um aspecto inegavelmente multidisciplinar, propondo um olhar sobre as primeiras assistentes sociais do Rio de Janeiro e destacando os prim\u00f3rdios da profiss\u00e3o. Sob forma de uma leitura convidativa e minuciosa, o livro analisa as ra\u00edzes da profiss\u00e3o, em per\u00edodos como a Era Vargas ou fase desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck, efetuando uma interlocu\u00e7\u00e3o entre os paradigmas que marcaram a \u00e1rea do servi\u00e7o social e recortes hist\u00f3ricos da sociedade brasileira,<br><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O Blog da EdUERJ conversou sobre a autora, a professora Graziela Scheffer Machado.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Como surgiu o interesse em pesquisar os temas de &#8220;Servi\u00e7o social na cad\u00eancia da mem\u00f3ria das pioneiras cariocas\u201d?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sempre tive curiosidade em conhecer mais a fundo as primeiras assistentes sociais, mas foi na proposta da tese de doutorado, investigando a rela\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7o social e higienismo no Rio de Janeiro, que me deparei com material biogr\u00e1fico das pioneiras, principalmente pela via do projeto de hist\u00f3ria oral da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas sobre hist\u00f3ria das pol\u00edticas sociais no Brasil. A partir da\u00ed fui me dedicando a encontrar entrevistas e depoimentos sobre as trajet\u00f3rias das pioneiras, para iluminar a an\u00e1lise hist\u00f3rico documental da \u00e9poca na interface com higienismo no Rio de Janeiro.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"> <em>Gostaria que contasse um pouco do processo de pesquisa.<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Al\u00e9m de ampla leitura da produ\u00e7\u00e3o sobre o servi\u00e7o social e o higienismo no Brasil, realizei trabalho de campo nos acervos das universidades (UERJ, UFRJ, PUC-RJ, UFF), no qual pude coletar documentos como curr\u00edculos, trabalhos de conclus\u00e3o, fichas de inscri\u00e7\u00e3o das estudantes e fotografias do per\u00edodo pesquisado. Al\u00e9m disso, fiz pesquisa nos acervos da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas e CBISS visando encontrar publica\u00e7\u00f5es da \u00e9poca e entrevistas.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>A primeira parte trata da influ\u00eancia externa sobre a atividade de servi\u00e7o social, entre o legado europeu e o americano. &nbsp;Qual era o impacto dessas influ\u00eancias?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Podemos considerar que Servi\u00e7o Social franco -belga e norte americano est\u00e3o nas bases constitutivas do Servi\u00e7o Social na Am\u00e9rica Latina, contudo cada pa\u00eds guarda suas particularidades relacionadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o social de cada na\u00e7\u00e3o. No Brasil, essas influ\u00eancias t\u00eam marcas temporais distintas e combina\u00e7\u00f5es particulares com o higienismo e o ide\u00e1rio da Igreja Cat\u00f3lica, formando um arranjo te\u00f3rico, higienista e doutrin\u00e1rio que orientou a forma\u00e7\u00e3o e trabalho profissional. O impacto destas correntes est\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o das primeiras escolas do servi\u00e7o social brasileiro e na orienta\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio profissional que abarca de 1936 at\u00e9 meados de 1960.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Essa ado\u00e7\u00e3o de pensamentos estrangeiros eram decorr\u00eancia do estilo de vida da \u00e9poca ou havia algum tipo de orienta\u00e7\u00e3o predeterminada aos assistentes sociais?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Com certeza era estilo vida da \u00e9poca. Conforme eu busquei demonstrar, era um tra\u00e7o constitutivo da cultura nacional e da intelectualidade de ent\u00e3o. No Servi\u00e7o Social, as ideias estrangeiras sofrem uma reelabora\u00e7\u00e3o para atender \u00e0s particularidades da realidade brasileira da \u00e9poca, o que resulta num processo de \u201ctropicaliza\u00e7\u00e3o\u201d das matrizes estrangeiras, alinhada \u00e0 tese de Schwarz (2009) que afirma que \u201cAo longo da reprodu\u00e7\u00e3o social, incansavelmente o Brasil p\u00f5e e rep\u00f5e ideias europeias, sempre em sentido impr\u00f3prio\u201d. De modo que as ideias estrangeiras liberais sempre estiveram fora do lugar no Brasil, pois sempre mantivemos as estruturas arcaicas da mentalidade escravista camuflada nas rela\u00e7\u00f5es de favor.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>A segunda parte do livro \u00e9 dedicada \u00e0s pioneiras do servi\u00e7o social no Rio de Janeiro. De alguma forma havia um perfil comum \u00e0s assistentes sociais nesse momento inicial ou era um grupo que se caracterizava pela heterogeneidade?<br><\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Havia sim, um perfil comum que era constitu\u00eddo por mulheres, oriundas das camadas sociais altas (que estavam em decad\u00eancia) e com forte vincula\u00e7\u00e3o com Igreja Cat\u00f3lica.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Uma quest\u00e3o tratada no livro \u00e9 a diverg\u00eancia entre as assistentes sociais a respeito da religi\u00e3o, contrapondo aqueles que procuravam fundamentos religiosos dos que tinham um olhar laico. O qu\u00e3o grande foi o impacto desse conflito?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Esse grupo laico era minorit\u00e1rio e com pouco impacto at\u00e9 meados de 1945. S\u00f3 ap\u00f3s a queda de Vargas e a chegada do Servi\u00e7o Social cl\u00e1ssico norte-americano \u00e9 que foi se destacando essa dimens\u00e3o mais t\u00e9cnica e laica da profiss\u00e3o, chegando at\u00e9 ter rupturas nos anos de 1960 com ebuli\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e cultural na conjuntura do Governo Jango.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Essa diferen\u00e7a de ideias ainda persiste atualmente de forma a prejudicar a profiss\u00e3o?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Existem diferen\u00e7as at\u00e9 porque vivemos uma conjuntura da extrema direita em nosso pa\u00eds, apoiada por segmentos evang\u00e9licos. Contudo, esse conflito n\u00e3o chega a prejudicar. Ainda parece muito camuflado. Hoje temos uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o laica e um claro projeto societ\u00e1rio, entretanto n\u00e3o podemos deixar de observar que existem muitas demandas conservadoras colocadas na atualidade, como, por exemplo, o Escola sem Partido, al\u00e9m de todos ataques aos direitos sociais e trabalhistas.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Outro ponto de interesse do livro \u00e9 o que trata das pioneiras do servi\u00e7o social no Rio de Janeiro. &nbsp;Voc\u00ea observa a trajet\u00f3ria de Maria Esolina Pinheiro, primeira diretora da FSS da UERJ. Qual foi a maior contribui\u00e7\u00e3o dela para a profiss\u00e3o?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Acredito que Maria Esolina, foi fundamental, pois foi lideran\u00e7a do grupo laico e progressista que confrontava a forma\u00e7\u00e3o conservadora da \u00e9poca alinhada as camadas altas da sociedade. Nas entrevistas, as pioneiras cat\u00f3licas inclusive enfatizam que depois da Escola de Servi\u00e7o Social da UERJ tudo mudou, pois ela n\u00e3o tinha v\u00ednculo com a Igreja Cat\u00f3lica. Al\u00e9m disso, Maria Esolina publicou muitos livros com essa \u00eanfase t\u00e9cnica e laica e tamb\u00e9m organizou Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Servi\u00e7o Social em 1953.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Ela tamb\u00e9m \u00e9 considerada a primeira autora de livro de servi\u00e7o social. Que tipo de obst\u00e1culos ela enfrentou?<\/em><br><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Maria Esolina, enfrentou in\u00fameros obst\u00e1culos como mulher divorciada (na d\u00e9cada 1930), com filhos e morava com companheiro tamb\u00e9m divorciado. Muitas vezes foi expulsa de reuni\u00f5es profissionais por alegar que a escola da UERJ n\u00e3o tinha cunho religioso. Por isso n\u00e3o era bem-vinda no debate profissional. Por outro lado, tinha apoio de importantes intelectuais da Nova Escola e de seu companheiro, que havia sido deputado federal antes da Ditadura Vargas.<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-24380\" srcset=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1-1024x1024.png 1024w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1-500x500.png 500w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1-100x100.png 100w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1-300x300.png 300w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1-184x184.png 184w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1-768x768.png 768w, https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/sevico-social-entrevista-m3-1.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>O livro dedica um segmento \u00e0 Dona Ivone Lara, a Dama do samba. Para os que n\u00e3o conhecem esse lado da artista, como era a sua liga\u00e7\u00e3o com o servi\u00e7o social?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Acredito que um dos mais importantes achados da pesquisa foi esse encontro com Dona Ivone Lara no Servi\u00e7o Social e na Sa\u00fade Mental, que expressa um lado pouco conhecido de nossa hist\u00f3ria profissional. A trajet\u00f3ria de Dona Ivone Lara no Servi\u00e7o Social coincide com os passos iniciais da profiss\u00e3o que se encontrava ainda em fase de constitui\u00e7\u00e3o. Ela se forma incialmente como enfermeira e visitadora social no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1940, durante a Segunda Guerra. Com o t\u00e9rmino da guerra houve a reabertura do curso de Servi\u00e7o Social. As disciplinas de servi\u00e7o social estavam entrela\u00e7adas com as de visitadora social e de Enfermagem. Da\u00ed Dona Ivone, retoma os estudos em 1947 a fim de diploma\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social. No Hospital Dom Pedro j\u00e1 exercia fun\u00e7\u00e3o de enfermeira, contudo, ao t\u00e9rmino, pede uma mudan\u00e7a de cargo para Assistente Social e passa a desenvolver, na \u00e9poca, um trabalho em conjunto com a Doutora Nise da Silveira.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Vale ressaltar que o livro veio em boa hora, servindo de homenagem aos 100 anos do nascimento de Dona Ivone Lara, comemorados em 2021. Ela era pioneira no servi\u00e7o social, e, tamb\u00e9m no samba, uma das primeiras mulheres a compor, algo in\u00e9dito em um universo predominantemente masculino. Como ela conseguiu conciliar essas duas atividades?<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Fico muito feliz em poder reverenciar o centen\u00e1rio de Dona Ivone Lara, o cora\u00e7\u00e3o fica em festa. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pergunta, as biografas escritas por Mila Burns e Katia Santos enfatizam que at\u00e9 se aposentar como assistente social em 1975, ela n\u00e3o se dedicava ao samba, mas sim ao trabalho na sa\u00fade mental. A Dama em seus relatos afirma que sempre tirava f\u00e9rias no Carnaval e assim conseguia conciliar sua carreira como assistente social e sua grande paix\u00e3o pelo samba e carnaval. Em rela\u00e7\u00e3o a ser uma mulher no samba, conforme minhas leituras, os primeiros sambas foram assinados pelo primo. Contudo, sua inser\u00e7\u00e3o nesse universo do samba vem de longa tradi\u00e7\u00e3o familiar que, no meu ponto vista, contribuiu para que fosse aceita como uma mulher compositora e, posteriormente, como cantora.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>O seu livro \u00e9 dedicado &#8220;Aos assistentes sociais cariocas do passado e do presente&#8221;. Entre acertos e desafios, como voc\u00ea analisa hoje o panorama da profiss\u00e3o de servi\u00e7o social?<\/em><br><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">No meu ponto vista, olhando a hist\u00f3ria profissional na sua totalidade, acredito que tivemos in\u00fameros acertos nesse giro do passado ao presente do Servi\u00e7o Social brasileiro. Somos uma profiss\u00e3o reconhecida nacionalmente, teoricamente e tecnicamente referenciada contra o capitalismo ultra neoliberal. Contudo, ainda temos muitos desafios e o levantar da poeira da hist\u00f3ria pode contribuir no sentido de fortalecer nosso trabalho e forma\u00e7\u00e3o profissional em sintonia com as resist\u00eancias e lutas que nos forjaram at\u00e9 aqui e que nos permitir\u00e3o avan\u00e7ar mais ainda por uma sociedade mais justa ou, qui\u00e7\u00e1, uma nova ordem societ\u00e1ria sem explora\u00e7\u00e3o-opress\u00e3o. Como canta Dona Ivone Lara:<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>\u201cEu vim de l\u00e1, eu vim de l\u00e1, pequenininho<br>Mas eu vim de l\u00e1, pequenininho<br>Algu\u00e9m me avisou<br>Pra pisar nesse ch\u00e3o devagarinho\u201d<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">E \u00e9 nesses passos mi\u00fados e com cuidado que seguiremos enfrentando os novos desafios de uma educa\u00e7\u00e3o contra barb\u00e1rie em que vivemos, nessa conjuntura pand\u00eamica e ultra neoliberal.<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Professora, agradecemos a entrevista ao Blog da EdUERJ<\/em>!<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Servi\u00e7o Social na cad\u00eancia da mem\u00f3ria das pioneiras cariocas&#8221; (EdUERJ, 2021), de Graziela Scheffer Machado, \u00e9 um t\u00edtulo que tem um aspecto inegavelmente multidisciplinar, propondo um olhar sobre as primeiras assistentes sociais do Rio de Janeiro e destacando os prim\u00f3rdios da profiss\u00e3o. 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