{"id":34947,"date":"2024-03-07T15:02:54","date_gmt":"2024-03-07T18:02:54","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=34947"},"modified":"2024-03-07T15:02:56","modified_gmt":"2024-03-07T18:02:56","slug":"uma-conversa-sobre-feminismo-machismo-e-sociedade-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/uma-conversa-sobre-feminismo-machismo-e-sociedade-contemporanea\/","title":{"rendered":"Uma conversa sobre feminismo, machismo e sociedade contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>O Blog da EdUERJ conversou com Vanessa do Nascimento Fonseca, autora de \u201cPrecisamos falar com os homens? Colonialidade e estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o das masculinidades\u201d, livro publicado pela Editora da UERJ em 2023. Nessa entrevista, ela reflete sobre a import\u00e2ncia de se buscar uma sociedade mais equ\u00e2nime, e aponta que \u201co machismo n\u00e3o est\u00e1 separado do racismo, do regionalismo, e tantos outros marcadores que usamos para classificar as pessoas\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>O livro trata da inclus\u00e3o dos homens no processo de combate a valores machistas. Como surgiu a ideia de produzir um trabalho com o tema?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Da minha pr\u00f3pria trajet\u00f3ria acad\u00eamica e profissional. As interven\u00e7\u00f5es e pesquisas com homens para a equidade de g\u00eanero, no Brasil, come\u00e7am a ganhar corpo, principalmente na d\u00e9cada de 1990, quando surgiram organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que desenvolviam a\u00e7\u00f5es com a tem\u00e1tica. J\u00e1 em 1999, na minha primeira experi\u00eancia em est\u00e1gio e pesquisa na UFRJ, entrei em contato com o tema, por meio de colabora\u00e7\u00e3o para uma pesquisa internacional. O assunto me tocou e, pouco tempo depois, comecei a trabalhar em uma organiza\u00e7\u00e3o que desenvolvia projetos de pesquisa e de interven\u00e7\u00f5es com homens, adaptando metodologias para a transforma\u00e7\u00e3o das masculinidades em diferentes pa\u00edses, sobretudo do Sul Global. Foi meu trabalho no campo de mais de uma d\u00e9cada, que me trouxe in\u00fameras indaga\u00e7\u00f5es sobre o assunto, as quais busquei pensar na tese de doutorado<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea acredita que o machismo e o patriarcado sejam refor\u00e7ados por valores relativos aos sistemas econ\u00f4micos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Feministas marxistas, sobretudo, e v\u00e1rios autoras\/es decoloniais t\u00eam explicado de maneira importante e complexa a rela\u00e7\u00e3o entre o patriarcado e o sistema capitalista e neoliberal. Grosso modo, tratam da rela\u00e7\u00e3o estreita entre patriarcado, racismo e capitalismo como pilares da colonialidade, do uso do trabalho dom\u00e9stico realizado por mulheres como condi\u00e7\u00e3o para a explora\u00e7\u00e3o do trabalho dito produtivo, da desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidado e de reprodu\u00e7\u00e3o da vida, associado \u00e0s mulheres, em benef\u00edcio do trabalho produtivo, associado aos homens. Podemos pensar, por exemplo, a partir do que acontece nas crises econ\u00f4micas. Sempre que uma economia vai mal, as mulheres s\u00e3o culpadas de abandonar os filhos e o lar, an\u00e1lise que ouvi certa vez de Fl\u00e1via Biroli a respeito da onda conservadora brasileira. Eu penso, acompanhando diversas autoras que analisam os processos de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade contempor\u00e2neos, que o regime capitalista e a raz\u00e3o neoliberal atuam e se sustentam em processos de produ\u00e7\u00e3o de masculinidades e feminilidades, em que aos homens (cis hetero brancos adultos&#8230;) atribui-se o dom\u00ednio da raz\u00e3o, da pr\u00e1tica pol\u00edtica e p\u00fablica, do trabalho fora do lar, e \u00e0s mulheres (tamb\u00e9m variando a partir de certos marcadores sociais) destina-se a pr\u00e1tica do cuidado com a vida, realizado de maneira gratuita, ou sem o valor devido. No livro eu cito bastante a Raquel Guti\u00e8rrez Aguilar, uma autora mexicana que, ao refletir sobre o movimento 8M e as viol\u00eancias contra mulheres, menciona que o patriarcado funciona como uma reiterada a\u00e7\u00e3o de drenagem e expropria\u00e7\u00e3o das energias criativas das mulheres, amalgamada com o capitalismo e a colonialidade. Nesse sentido, para que haja mudan\u00e7as, precisamos intervir sobre esse modo de funcionamento, que aprisiona as sa\u00eddas criativas para a nossa exist\u00eancia em modelos r\u00edgidos de ser, que, por seu turno, servem a regimes econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea define a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o dos homens na causa feminista ?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Os homens fazem parte das rela\u00e7\u00f5es sociais que precisam ser mudadas, constroem os regimes pol\u00edticos e econ\u00f4micos, t\u00eam grande poder nessa constru\u00e7\u00e3o. Portanto, precisam tamb\u00e9m analisar seu papel na perpetra\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, al\u00e9m das viol\u00eancias cometidas contra grupos minorit\u00e1rios e entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Quais estrat\u00e9gias voc\u00ea considera mais efetivas para estimular os homens a mudarem comportamentos nocivos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso tomar cuidado com receitas e modelos que prometem mudan\u00e7as r\u00e1pidas e superficiais de comportamento. \u00c9 muito comum se requisitar a cartilha do homem transformado, ou descontru\u00eddo. Mas, apesar de, em muitos casos, se oferecerem algumas pistas de mudan\u00e7a, modelos podem ser a reprodu\u00e7\u00e3o do problema, ou seja, fazer com que aprisionemos em formas de como devemos ser, em vez de sustentar uma an\u00e1lise cr\u00edtica de nossas posi\u00e7\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es. As transforma\u00e7\u00f5es se baseiam no modo como nos relacionamos. \u00c9 um exerc\u00edcio constante. Trata-se de uma perspectiva \u00e9tico-pol\u00edtico para a vida, em que o \u201centre n\u00f3s\u201d precisa ser analisado frequentemente, no sentido de construir uma rela\u00e7\u00e3o justa, com base no cuidado consigo e com o outro. E isso precisa ser trabalhado nos diferentes espa\u00e7os, das pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e0s pr\u00e1ticas cotidianas; das rela\u00e7\u00f5es nas empresas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es familiares, nos servi\u00e7os, etc. Os espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais para esse exerc\u00edcio. A escola, na medida em que reflete as rela\u00e7\u00f5es humanas, \u00e9 um espa\u00e7o potente para esse trabalho. \u00c9 importante destacar que espa\u00e7os para a reflex\u00e3o de comportamentos s\u00e3o importantes, mas as mudan\u00e7as devem ir al\u00e9m do n\u00edvel individual. \u00c9 preciso que haja interfer\u00eancias nas for\u00e7as que apoiam o modo como nos relacionamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Quais foram as principais conclus\u00f5es ou <em>insights<\/em> que voc\u00ea obteve durante o processo de escrita do livro, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o masculina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Acho que aprendi muito com as leituras e an\u00e1lises da minha pr\u00f3pria pr\u00e1tica. Mas, destacaria aqui que transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o um processo e n\u00e3o um fim estabelecido de antem\u00e3o, como modelos de homens transformados\/ desconstru\u00eddos. \u00c9 necess\u00e1rio sustentar uma an\u00e1lise cr\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, o machismo n\u00e3o est\u00e1 separado do racismo, do regionalismo, e tantos outros marcadores que usamos para classificar as pessoas. Mas reconhecer isso vai al\u00e9m de se autoidentificar como homem cis-heterossexual branco, por exemplo. Todos os engajados nos processos de transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais precisam acompanhar e analisar suas posi\u00e7\u00f5es nessas rela\u00e7\u00f5es, ininterruptamente. Os homens precisam estar na luta para transformar a sociedade, mas realizando um exerc\u00edcio constante de an\u00e1lise sobre seus lugares nas rela\u00e7\u00f5es sociais, com o fim de enfrentar rela\u00e7\u00f5es de poder. N\u00e3o se trata de p\u00f4r \u00eanfase nas posi\u00e7\u00f5es de v\u00edtima e algoz, her\u00f3i ou vil\u00e3o. Esses lugares podem nos fazer ignorar que o trabalho \u00e9 coletivo. \u00c9 importante pensar como se instituem as rela\u00e7\u00f5es. Que pr\u00e1ticas interferem nas possibilidades criativas de exist\u00eancia de cada um de n\u00f3s, na nossa diversidade? \u00c9 preciso refletir e agir sobre essas interfer\u00eancias, facilitando a vida, a diversidade humana, inclusive dos homens, que s\u00e3o cobrados por sustentar um modelo de masculinidade. Ent\u00e3o, trata-se muito mais de uma \u00e9tica do que um novo modelo a ser seguido. Experi\u00eancias de vida, hist\u00f3rias de transforma\u00e7\u00e3o e at\u00e9 algumas orienta\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a s\u00e3o importantes como ferramentas e, como tal, precisam ser utilizadas conforme o contexto, atualizadas em cada pr\u00e1tica, com cada grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea avalia hoje o papel das iniciativas da sociedade civil na promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e dos direitos humanos, em sintonia com a valoriza\u00e7\u00e3o da mulher?\u00a0 Voc\u00ea acredita que o combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher e a luta contra discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero j\u00e1 tenham o devido respaldo no \u00e2mbito da sociedade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O trabalho da sociedade civil tem sido fundamental na promo\u00e7\u00e3o de cr\u00edticas contundentes \u00e0s rela\u00e7\u00f5es e aos regimes s\u00f3cio-pol\u00edtico-econ\u00f4micos, dando origem a uma s\u00e9rie de pol\u00edticas e leis fundamentais na garantia dos direitos dos grupos minorit\u00e1rios, incluindo as mulheres. A sociedade civil tem mostrado o qu\u00e3o fundamental \u00e9 que rela\u00e7\u00f5es mais justas e equ\u00e2nimes sejam promovidas para o alcance de melhor sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, renda, etc. Pr\u00e1ticas inovadoras, baseadas nas condi\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas do p\u00fablico de interesse, dos la\u00e7os de solidariedade e das redes de apoio que se tecem localmente. No caso da viol\u00eancia contra mulheres, a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminic\u00eddio, entre institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas importantes de acolhimento s\u00e3o exemplos, assim como o trabalho com homens autores de viol\u00eancia, com muitas publica\u00e7\u00f5es e trabalhos consistentes a respeito do assunto. Tudo isso tem mobilizado transforma\u00e7\u00f5es profundas. No entanto, al\u00e9m da rea\u00e7\u00e3o conservadora atual a tais conquistas, que demonstra que muitas mudan\u00e7as nas subjetividades ainda precisam ser feitas, os dados demonstram que precisamos caminhar muito. A Confedera\u00e7\u00e3o Nacional das Ind\u00fastrias (CNI) divulgou recentemente que a diferen\u00e7a salarial entre homens e mulheres reduziu nos \u00faltimos 10 anos. As mulheres, que ganhavam 72% do sal\u00e1rio dos homens, passaram a receber 78,11%. Isso, a despeito de 2 anos a mais de escolaridade. A mudan\u00e7a \u00e9 positiva. Mas ainda \u00e9 necess\u00e1rio mais. E se considerarmos a velocidade em que a mudan\u00e7a foi feita, precisaremos de mais 40 anos para haver paridade, de acordo com o estudo da CNI. Isso \u00e9 s\u00f3 um exemplo. Os \u00edndices de viol\u00eancia contra a mulher s\u00e3o ainda muito altos, principalmente, para mulheres negras. O Brasil se destaca pelos \u00edndices de feminic\u00eddio. Enfim, s\u00e3o muitos os dados que demonstram que muito ainda precisa ser feito. A viol\u00eancia entre os homens tamb\u00e9m \u00e9 reflexo das normas de g\u00eanero e os homens pagam um pre\u00e7o muito alto por isso, sobretudo, os homens jovens e negros, que s\u00e3o os que mais morrem por homic\u00eddio no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>O Blog da EdUERJ convida todos a conferirem o livro &#8220;Precisamos falar com os homens?  Colonialidade e estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o das masculinidades&#8221;, dispon\u00edvel em formato epub ou impresso sob demanda no site da EdUERJ.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-eduerj-editora-da-universidade-do-estado-do-rio-de-janeiro wp-block-embed-eduerj-editora-da-universidade-do-estado-do-rio-de-janeiro eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"uDMaBl3g2o\"><a href=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/produto\/precisamos-falar-com-os-homens-colonialidade-e-estrategias-de-transformacao-das-masculinidades\/\">&#8220;Precisamos falar com os homens?&#8221;: colonialidade e estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o das masculinidades<\/a><\/blockquote><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; visibility: hidden;\" title=\"\u201c\u201cPrecisamos falar com os homens?\u201d: colonialidade e estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o das masculinidades\u201d \u2014 EdUERJ - Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro\" src=\"https:\/\/eduerj.com\/br\/produto\/precisamos-falar-com-os-homens-colonialidade-e-estrategias-de-transformacao-das-masculinidades\/embed\/#?secret=FGzP1aEIPn#?secret=uDMaBl3g2o\" data-secret=\"uDMaBl3g2o\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Blog da EdUERJ conversou com Vanessa do Nascimento Fonseca, autora de \u201cPrecisamos falar com os homens? 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