{"id":35697,"date":"2024-06-24T13:22:31","date_gmt":"2024-06-24T16:22:31","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=35697"},"modified":"2024-06-24T13:22:34","modified_gmt":"2024-06-24T16:22:34","slug":"blog-da-eduerj-entrevista-autora-de-dois-generos-duas-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/blog-da-eduerj-entrevista-autora-de-dois-generos-duas-historias\/","title":{"rendered":"Blog da EdUERJ entrevista autora de &#8220;Dois g\u00eaneros, duas hist\u00f3rias?&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">No dia 4 de julho, \u00e0s 19h, a Editora da UERJ lan\u00e7a &#8220;Dois g\u00eaneros, duas hist\u00f3rias? A funda\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil&#8221;, na Livraria Travessa, em Botafogo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O Blog da UERJ conversou com a autora, Marcia Rangel Candido. Ela \u00e9 doutora em ci\u00eancia pol\u00edtica pelo IESP-UERJ e atua tamb\u00e9m como coordenadora de pesquisa no Grupo de Estudos Multidisciplinar da A\u00e7\u00e3o Afirmativa (GEMAA) e editora de Dados, uma das mais longevas publica\u00e7\u00f5es nas ci\u00eancias sociais no Brasil<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ:\u00a0 Professora, o seu livro aborda a funda\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil e traz \u00e0 tona o papel determinante das mulheres durante o processo. De que maneira surgiu o interesse pelo tema?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Marcia Rangel Candido: Sempre gostei muito de estudar hist\u00f3ria e foi natural come\u00e7ar a me questionar como a minha \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u2013 a Ci\u00eancia Pol\u00edtica &#8211; surgiu no Brasil e em outros pa\u00edses do mundo. Ao pedir refer\u00eancias \u00e0s pessoas especialistas na \u00e1rea e ao ler textos sobre o tema, passou a me incomodar o predom\u00ednio exclusivo de men\u00e7\u00f5es a homens fundadores. A princ\u00edpio eu entendi que isso era l\u00f3gico, pois as mulheres demoraram mais a ingressar no ensino superior e a ci\u00eancia pol\u00edtica constituiu como objeto central de estudo espa\u00e7os de poder que frequentemente registram desigualdades em termos de g\u00eanero. Resolvi, todavia, me aprofundar no problema e a indagar como se deu essa inser\u00e7\u00e3o das mulheres na \u00e1rea. Se elas n\u00e3o apareciam como \u201cfundadoras\u201d, onde figuravam na ci\u00eancia pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos homens? Foi a\u00ed que veio a surpresa. Mesmo tendo estudado desigualdades desde a gradua\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o esperava que meus achados no doutorado fossem revelar tantas injusti\u00e7as. A disciplina conservou uma minoria de mulheres em posi\u00e7\u00f5es de poder intelectual, e, ao mesmo tempo, existiu um forte interesse deste grupo social pela \u00e1rea desde seus prim\u00f3rdios. Ao longo da hist\u00f3ria, elas chegaram a ser propor\u00e7\u00e3o substantiva de mestras e doutoras, compondo inclusive maioria nas primeiras turmas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, encontrei mais surpresas como resultados da pesquisa, como o fato de que pertenceu a mulheres de gera\u00e7\u00f5es pioneiras, em compara\u00e7\u00e3o a homens do mesmo patamar, pelo menos tr\u00eas lideran\u00e7as relevantes nas medidas tradicionais de avalia\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia: a de taxas de cita\u00e7\u00e3o ao conjunto de obras, a de regularidade de pr\u00e1ticas de internacionaliza\u00e7\u00e3o das pesquisas e a maior quantidade de orienta\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es de estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: O t\u00edtulo (\u201cDois g\u00eaneros, duas hist\u00f3rias?\u201d) faz uma provoca\u00e7\u00e3o. Poderia haver narrativas distintas da funda\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil, dependendo do g\u00eanero de quem conta a hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Marcia Rangel Candid<\/strong>o: Creio que sim. O que a hist\u00f3ria da ci\u00eancia tem nos mostrado \u00e9 que a emerg\u00eancia da diversidade na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento gera tamb\u00e9m novas perspectivas dentro dela, com maior sensibilidade \u00e0s diferen\u00e7as sociais e \u00e0s desigualdades que atingem as pessoas de variadas maneiras na sociedade. Por outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio ter cautela em rela\u00e7\u00e3o a essencializa\u00e7\u00f5es de papeis sociais de g\u00eanero. No caso da ci\u00eancia pol\u00edtica brasileira, homens e mulheres tenderam a refor\u00e7ar uma imagem de predom\u00ednio masculino na funda\u00e7\u00e3o da disciplina; em contraposi\u00e7\u00e3o, de fato, os primeiros livros a questionar esta representa\u00e7\u00e3o foram de autoria de mulheres. Tanto o meu, quanto um precedente, publicado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Ci\u00eancia Pol\u00edtica, chamado \u201cMulheres, Poder e Ci\u00eancia Pol\u00edtica\u201d, organizado pelas colegas Fl\u00e1via Biroli, Luciana Tatagiba, Carla Almeida, Cristina Buarque de Hollanda e Vanessa Elias de Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Vale ressaltar que a provoca\u00e7\u00e3o no t\u00edtulo do livro \u00e9 um posicionamento. Hoje vemos nas livrarias prateleiras separadas de livros de mulheres, enquanto os homens seguem expostos como representantes de algo isento e neutro, apartados de qualquer suposto vi\u00e9s anal\u00edtico. N\u00e3o gosto desta separa\u00e7\u00e3o. De um ponto de vista mais amplo, n\u00e3o restrito \u00e0 ci\u00eancia pol\u00edtica, in\u00fameras obras que se propunham \u201cuniversais\u201d refletiram somente sobre nomes de homens. Em resposta, mulheres passaram a construir um campo de pesquisas muito rico, que buscava enfatizar uma hist\u00f3ria com enfoque no grupo delas, as \u201cesquecidas\u201d, as \u201cexclu\u00eddas\u201d etc. De certa forma, tentei colaborar com este \u00faltimo tipo de abordagem, mas dei igualmente import\u00e2ncia a faz\u00ea-lo de um ponto de vista mais relacional. A pesquisa n\u00e3o se limitou a expor uma hist\u00f3ria espec\u00edfica de mulheres, dando espa\u00e7o a compara\u00e7\u00f5es com os homens, o que demonstrou que n\u00e3o foram registradas evid\u00eancias hist\u00f3ricas para justificar a preced\u00eancia de um grupo sobre o outro. Com disparidades menos profundas do que se poderia imaginar, ambos contribu\u00edram para o desenvolvimento da ci\u00eancia pol\u00edtica no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ademais, ressalto que o livro se restringiu a contrastar trajet\u00f3rias de homens e mulheres que estiveram no princ\u00edpio da funda\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica brasileira, assim como avan\u00e7ou na constru\u00e7\u00e3o de indicadores sociais restritos ao tratamento de g\u00eanero como uma categoria dicot\u00f4mica e descritiva. Por isso a refer\u00eancia a \u201cdois g\u00eaneros\u201d. Fiz nele o que era poss\u00edvel ser feito com o tempo e os recursos que me estavam dispon\u00edveis, mas acredito na ci\u00eancia como um projeto colaborativo em que vamos progredindo juntos. H\u00e1 uma agenda de pesquisas sobre desigualdades na ci\u00eancia que tem muito a crescer, dando aten\u00e7\u00e3o a tipos de discrimina\u00e7\u00e3o mais variadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: O livro oferece uma riqueza de dados e de informa\u00e7\u00f5es. Como voc\u00ea estruturou essa coleta de subs\u00eddios para a pesquisa? Quais os maiores desafios?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Marcia Rangel Candido<\/strong> : O desenvolvimento de novas pesquisas cient\u00edficas se ampara irrestritamente no que veio antes. \u00c9 imposs\u00edvel aprendermos sobre um determinado tema de interesse sem ler colegas que escreveram sobre ele no passado. \u00c9 a partir da\u00ed que podemos descobrir onde situar nossa colabora\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, mas \u00e9 tamb\u00e9m nesta fase explorat\u00f3ria que conhecemos os m\u00e9todos, as t\u00e9cnicas e os dados j\u00e1 dispon\u00edveis para consulta, assim como o que ainda precisa ser feito. Desta forma, minha primeira etapa de organiza\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a defini\u00e7\u00e3o do problema de pesquisa que queria enfrentar, foi buscar verificar como diferentes perspectivas produziram an\u00e1lises sobre a ci\u00eancia, dos estudos de g\u00eanero \u00e0 hist\u00f3ria intelectual, da sociologia dos intelectuais \u00e0 sociologia da ci\u00eancia, da hist\u00f3ria da ci\u00eancia, de um modo mais abrangente, \u00e0 hist\u00f3ria particular da ci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Acho que este tipo de exerc\u00edcio preliminar traz certa confus\u00e3o, pois nos exp\u00f5e a muita informa\u00e7\u00e3o, que muitas vezes \u00e9 conflituosa e discrepante; mas ao mesmo tempo nos torna mais humildes. Chega o momento em que percebemos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dar conta de tudo, que caminhos precisam ser escolhidos. Estipulei, portanto, um recorte temporal, um corpo de autores com que iria dialogar e um montante de evid\u00eancias emp\u00edricas que conseguiria coletar. Acho que o maior desafio deste movimento \u00e9 renunciar a quest\u00f5es que voc\u00ea tamb\u00e9m identifica como urgentes. Gostaria de ter tratado de desigualdades raciais na ci\u00eancia pol\u00edtica de maneira cruzada a g\u00eanero, como j\u00e1 fiz com colegas em artigos antes, mas vi que n\u00e3o seria poss\u00edvel, pois o esfor\u00e7o no levantamento de dados \u00e9 distinto, como explico no livro. Outra coisa que me ajudou, al\u00e9m de reconhecer limita\u00e7\u00f5es, foi demarcar perguntas e objetivos claros a cada cap\u00edtulo. O livro tem uma pergunta mais geral, que \u00e9 encarada no conjunto dos cap\u00edtulos, mas cada um deles pode existir sozinho. Isto auxiliou a impor metas e prazos fact\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Um dos prismas mais significativos da publica\u00e7\u00e3o \u00e9 o do trabalho das pioneiras da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil. Como o trabalho dessas pesquisadoras impactou a disciplina?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Marcia Rangel Candido<\/strong>: As mulheres participaram de todas as frentes poss\u00edveis na institucionaliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil. Embora n\u00e3o tenham liderado a cria\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es por uma pequena diferen\u00e7a temporal com a forma\u00e7\u00e3o dos homens que o fizeram, elas j\u00e1 estavam nas primeiras turmas de mestrado, inclusive sendo maioria em algumas delas, tamb\u00e9m escrevendo os primeiros trabalhos que viriam a se tornar cl\u00e1ssicos em diferentes \u00e1reas da disciplina. Na cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es, elas contribu\u00edram ainda com a forma\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es profissionais nacionais e colaboraram pioneiramente em pesquisas com associa\u00e7\u00f5es profissionais internacionais. Al\u00e9m disso, em compara\u00e7\u00e3o a indicadores sobre a trajet\u00f3ria de homens fundadores, certas mulheres fundadoras ficaram \u00e0 frente na quantidade de alunos orientados, nas pr\u00e1ticas de internacionaliza\u00e7\u00e3o e no conjunto total de cita\u00e7\u00f5es a suas obras, como mencionei na resposta \u00e0 outra pergunta. A despeito de parte da hist\u00f3ria da ci\u00eancia pol\u00edtica subestim\u00e1-las, elas conseguiram, portanto, atingir posi\u00e7\u00f5es prestigiosas at\u00e9 mesmo em crit\u00e9rios usuais de avalia\u00e7\u00e3o de produtividade na hist\u00f3ria da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Ainda hoje, \u00e9 poss\u00edvel que existam resist\u00eancias, mesmo que veladas, \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da perspectiva feminina da hist\u00f3ria da ci\u00eancia pol\u00edtica? &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Marcia Rangel Candido<\/strong>: N\u00e3o tenho nenhuma d\u00favida que sim. Ainda que tenhamos avan\u00e7ado nos debates sobre desigualdades de g\u00eanero na ci\u00eancia pol\u00edtica, parte da comunidade cient\u00edfica ainda refor\u00e7a uma s\u00e9rie de barreiras \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o mais est\u00e1vel de mulheres na disciplina. No livro, mostro que historicamente as mulheres estiveram em bom n\u00famero entre tituladas em mestrado e doutorado na \u00e1rea. A queda mais substantiva de sua presen\u00e7a ocorreu ao longo do tempo no quesito de participa\u00e7\u00e3o como docentes e pesquisadoras com contratos mais fixos nas universidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Embora a redu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o feminina em postos mais altos seja um elemento mais generaliz\u00e1vel das desigualdades de g\u00eanero na ci\u00eancia, ou seja, n\u00e3o restrito somente \u00e0 ci\u00eancia pol\u00edtica, \u00e9 importante ressaltar os elementos distintivos da disciplina. Ao contr\u00e1rio de outras \u00e1reas de exatas, a ci\u00eancia pol\u00edtica tem um contingente especializado de mulheres dispon\u00edvel para ser contratado. O buraco mais severo, portanto, n\u00e3o est\u00e1 necessariamente na forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, mas sim nas suas chances de empregabilidade no mundo acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Creio que tal fen\u00f4meno vem sendo poss\u00edvel por duas din\u00e2micas principais. A primeira delas diz respeito ao refor\u00e7o de certas \u00e1reas de pesquisa nas quais as mulheres ainda s\u00e3o minoria. Grande parte dos concursos que abrem para sele\u00e7\u00e3o de professores no Brasil n\u00e3o considera estudos com perspectiva de g\u00eanero ou ra\u00e7a, por exemplo, que costumam ter maior participa\u00e7\u00e3o de mulheres\/negros. O problema \u00e9 ainda maior quando as pesquisas que empreendem este tipo de recorte s\u00e3o associadas a um vi\u00e9s meramente pol\u00edtico, descreditadas como ci\u00eancia, como se demais abordagens tamb\u00e9m n\u00e3o tivessem car\u00e1ter de algum modo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Por outro lado, enquanto \u00e1rea do conhecimento dominada por homens brancos em posi\u00e7\u00f5es de poder, a ci\u00eancia pol\u00edtica forneceu baixas evid\u00eancias de preocupa\u00e7\u00e3o com as suas desigualdades internas. A agenda de pesquisa sobre o problema demorou a ser iniciada e, somado a isso, importantes documentos de avalia\u00e7\u00e3o da \u00e1rea foram difundidos desconsiderando elementos como o impacto da maternidade nas taxas de produtividade, quest\u00e3o que j\u00e1 \u00e9 endere\u00e7ada por outras disciplinas das ci\u00eancias sociais, como a sociologia e a antropologia, onde n\u00e3o por acaso se tem mais mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: O fato de as mulheres terem demorado a obter o direito ao voto e de serem, no passado, tantas vezes alijadas das conversas sobre pol\u00edtica (que seria \u201ctema de homem\u201d) consolidou algum tipo de preconceito que dificultou a disciplina de se tornar mais interessante para elas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Marcia Rangel Candido<\/strong> : O livro mostrou que esta no\u00e7\u00e3o de falta de interesse das mulheres na ci\u00eancia pol\u00edtica pode ser interpretada como uma fal\u00e1cia. Outras pesquisas tamb\u00e9m atestaram que o mesmo ocorre para a pol\u00edtica institucional, mas com raz\u00f5es distintas. Ao estudarmos a constitui\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil, pudemos ver uma participa\u00e7\u00e3o significativa de mulheres na \u00e1rea desde seus prim\u00f3rdios, tendo elas enfrentado problemas para serem reconhecidas ou mais estabelecidas profissionalmente. Contudo, na \u00e9poca em que a disciplina se institucionalizou no pa\u00eds, as mulheres j\u00e1 dispunham de direito ao voto e estavam ingressando em peso no ensino superior, onde logo seriam maioria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Tal elemento \u00e9 algo a se destacar no \u00e2mbito nacional em rela\u00e7\u00e3o a outras realidades estrangeiras. Dando um paralelo superficial, nos Estados Unidos, por exemplo, os fundadores da disciplina, que criaram a associa\u00e7\u00e3o profissional de l\u00e1 no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, eram contra o direito ao sufr\u00e1gio universal. Logicamente isto afastou as mulheres deste nicho da \u00e1rea, tendo em vista que um dos principais movimentos pol\u00edticos delas naquele momento advogava pelo voto feminino. Em somat\u00f3rio, elas ainda enfrentavam maiores desafios para conquistar diplomas em algumas carreiras, como a ci\u00eancia pol\u00edtica, por serem minoria isolada, casos excepcionais; longe do que viria a ocorrer no Brasil, que quase cinquenta anos depois, chegou a ter mulheres em maior n\u00famero nas primeiras turmas da disciplina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">No caso da pol\u00edtica institucional, por sua vez, as taxas de candidatura e de elei\u00e7\u00e3o de mulheres seguem sendo muito baixas no Brasil e em outras partes do mundo. Mas o que os estudos de g\u00eanero t\u00eam mostrado \u00e9 que estes resultados n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples de interpretar. N\u00e3o basta dizer que existe uma falta de interesse supostamente natural das mulheres na pol\u00edtica. Pelo contr\u00e1rio. Os altos indicadores de viol\u00eancia de g\u00eanero na pol\u00edtica, bem como as diferen\u00e7as de financiamento e de est\u00edmulos a candidaturas femininas s\u00e3o barreiras bastante fortes a serem ponderadas nos julgamentos. A alta inser\u00e7\u00e3o de mulheres em movimentos sociais, a magnitude de protestos feministas e o predom\u00ednio do g\u00eanero nos debates de certas tem\u00e1ticas, como no agendamento de pol\u00edticas voltadas ao combate da pr\u00f3pria viol\u00eancia contra elas, tamb\u00e9m s\u00e3o ind\u00edcios de que certas conclus\u00f5es dependem muito do tipo de espa\u00e7o e participa\u00e7\u00e3o que se est\u00e1 valorizando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> <strong>A quem voc\u00ea indica a leitura de Dois g\u00eaneros, duas hist\u00f3rias?<br>Marcia Rangel Candido<\/strong>: A pol\u00edtica \u00e9 parte fundamental da vida social e impacta a rotina de todos. Por conta disso, entender como produzimos estudos sobre pol\u00edtica e quem contribuiu historicamente para desenvolver a ci\u00eancia pol\u00edtica me parece um tema com relev\u00e2ncia ampla. O livro traz informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e indicadores sociais interessantes sobre o assunto, contribuindo para os estudos de g\u00eanero, a hist\u00f3ria da ci\u00eancia pol\u00edtica e a hist\u00f3ria da ci\u00eancia de uma maneira mais geral.\u00a0\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 4 de julho, \u00e0s 19h, a Editora da UERJ lan\u00e7a &#8220;Dois g\u00eaneros, duas hist\u00f3rias? A funda\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil&#8221;, na Livraria Travessa, em Botafogo O Blog da UERJ conversou com a autora, Marcia Rangel Candido. Ela \u00e9 doutora em ci\u00eancia pol\u00edtica pelo IESP-UERJ e atua tamb\u00e9m como coordenadora de pesquisa no Grupo de Estudos Multidisciplinar da A\u00e7\u00e3o Afirmativa (GEMAA) e editora de Dados, uma das mais longevas publica\u00e7\u00f5es nas ci\u00eancias sociais no Brasil Blog da EdUERJ:\u00a0 Professora, o seu livro aborda a funda\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil e traz \u00e0 tona o papel determinante das\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":35698,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"editor_plus_post_options":"{}","editor_plus_copied_stylings":"{}","footnotes":""},"categories":[202],"tags":[2753,4334,4344,4345],"class_list":["post-35697","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-ciencia-politica","tag-dois-generos","tag-duas-historias-a-fundacao-da-ciencia-politica-no-brasil","tag-marcia-candido-rangel"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":5}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35697"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35697\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35700,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35697\/revisions\/35700"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35698"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/eduerj.com\/br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}