{"id":37132,"date":"2024-12-05T13:07:59","date_gmt":"2024-12-05T16:07:59","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=37132"},"modified":"2024-12-05T13:08:01","modified_gmt":"2024-12-05T16:08:01","slug":"entrevista-com-prof-adacto-benedicto-ottoni-sobre-crise-hidrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/entrevista-com-prof-adacto-benedicto-ottoni-sobre-crise-hidrica\/","title":{"rendered":"Entrevista com Prof. Adacto Benedicto Ottoni sobre crise h\u00eddrica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em um momento em que muitos bairros do Rio de Janeiro est\u00e3o atravessando uma crise de abastecimento de \u00e1gua, faz-se cada vez mais necess\u00e1ria uma conversa sobre a quest\u00e3o h\u00eddrica, com um enfoque em desenvolvimento sustent\u00e1vel.  Para falar sobre o tema, convidamos o professor  Adacto Benedicto Ottoni, autor do livro \u201cA import\u00e2ncia do saneamento integrado e sustent\u00e1vel para viabilizar o combate \u00e0 crise h\u00eddrica: o caso das bacias do Guandu e Para\u00edba do Sul\u201d, lan\u00e7amento de 2024 da EdUERJ. Ottoni \u00e9 professor do Departamento de Engenharia Sanit\u00e1ria e do Meio Ambiente da UERJ. A entrevista foi concedida por email.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong> A manuten\u00e7\u00e3o anual do sistema Guandu, realizada pela Cedae, \u00e9 planejada e comunicada previamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. No entanto, a interrup\u00e7\u00e3o resultante causou desabastecimento prolongado em muitos bairros. Como voc\u00ea analisa esse panorama atual em que tantos bairros ficaram sem \u00e1gua? Essa situa\u00e7\u00e3o poderia ter sido evitada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Existe um grande problema na \u00e1gua bruta captada pela CEDAE no rio Guandu, que \u00e9 a qualidade das \u00e1guas da Lagoa do Guandu, que est\u00e1 bastante eutrofizada (produ\u00e7\u00e3o de macr\u00f3fitas e fitopl\u00e2ncton), devido ao lan\u00e7amento de polui\u00e7\u00e3o org\u00e2nica (lixo e esgotos) proveniente de Queimados e Nova Igua\u00e7u. Uma parte importante da manuten\u00e7\u00e3o anual do sistema Guandu \u00e9 fazer a retirada desse material biol\u00f3gico da Lagoa do Guandu, visando melhorar a qualidade da \u00e1gua bruta captada pela CEDAE no rio Guandu. Boa parte desse problema poderia ser evitada se houvesse a prioriza\u00e7\u00e3o no saneamento\u00a0de esgotos e res\u00edduos s\u00f3lidos em Queimados e Nova Igua\u00e7u, com solu\u00e7\u00f5es emergenciais e de m\u00e9dio prazo, dando mais seguran\u00e7a h\u00eddrica ao abastecimento de \u00e1gua da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro. Al\u00e9m disso, aproximadamente 90% das \u00e1guas do rio Guandu v\u00eam por transposi\u00e7\u00e3o de vaz\u00f5es da bacia hidrogr\u00e1fica do rio Para\u00edba do Sul, que \u00e9 um rio bastante degradado e cuja bacia possui elevado grau de desmatamento. Portanto, para se garantir mais seguran\u00e7a ao abastecimento de \u00e1gua da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro \u00e9 priorit\u00e1rio se rever as pol\u00edticas p\u00fablicas para a recupera\u00e7\u00e3o ambiental efetiva das bacias hidrogr\u00e1ficas dos rios Guandu e Para\u00edba do Sul. Nova Iorque priorizou este tipo de solu\u00e7\u00e3o, implantando um importante programa de &#8220;Produtores de \u00c1gua&#8221; na bacia hidrogr\u00e1fica dos seus mananciais h\u00eddricos, regularizando as vaz\u00f5es dos rios e melhorando sua qualidade de \u00e1gua, o que barateou o tratamento e reduziu as tarifas de \u00e1guas pagas pela popula\u00e7\u00e3o. O que deve ser priorizado \u00e9 a melhoria da qualidade e da regulariza\u00e7\u00e3o de vaz\u00f5es dos rios Guandu e Para\u00edba do Sul, a partir do incremento da recarga das \u00e1guas de chuva no per\u00edodo chuvoso do ano hidrol\u00f3gico, e o controle efetivo da polui\u00e7\u00e3o de origem pontual e difusa, dando mais seguran\u00e7a ao abastecimento de \u00e1gua e sa\u00fade \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O desabastecimento prolongado em v\u00e1rios bairros pode ter sido causado por rompimentos de adutoras de \u00e1gua, onde deve se fazer uma per\u00edcia para se avaliar com precis\u00e3o as causas desses problemas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea avalia a capacidade das concession\u00e1rias e da Cedae em lidar com os desafios estruturais para evitar crises futuras?\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">As concession\u00e1rias de saneamento t\u00eam de garantir a qualidade dos servi\u00e7os prestados. Os recentes problemas de falta de \u00e1gua no Rio de Janeiro devido ao rompimento de adutoras de \u00e1gua podem ser devido a 3 fatores principais: 1- Tubula\u00e7\u00f5es antigas e que apresentem problemas de incrusta\u00e7\u00f5es em suas paredes, aumentando a rugosidade e reduzindo a espessura das paredes da tubula\u00e7\u00e3o. Para reduzir esse problema, deve ser feito de forma urgente uma per\u00edcia nessas tubula\u00e7\u00f5es, definir-se as regi\u00f5es cr\u00edticas dessas tubula\u00e7\u00f5es antigas, e troc\u00e1-las; 2- Press\u00f5es elevadas nas adutoras de \u00e1gua. As press\u00f5es m\u00e1ximas em uma adutora de \u00e1gua n\u00e3o podem ultrapassar 45 a 60 metros de coluna de \u00e1gua (m.c.a.), o que pode levar a vazamentos de \u00e1gua dessas tubula\u00e7\u00f5es. Para se evitar ou reduzir sensivelmente este problema, as concession\u00e1rias devem implantar um sistema de monitoramento ambiental piezom\u00e9trico sensorizado dessas tubula\u00e7\u00f5es e corrigir o problema das altas press\u00f5es na rede daqui pra frente, prevenindo o rompimento das adutoras; 3- Ocupa\u00e7\u00f5es irregulares sobre as tubula\u00e7\u00f5es de \u00e1gua da concession\u00e1ria, o que pode gerar riscos de rompimento. Esse problema pode ser bastante minimizado a partir de uma fiscaliza\u00e7\u00e3o efetiva na rede evitando interven\u00e7\u00f5es irregulares da popula\u00e7\u00e3o que possam colocar em risco as tubula\u00e7\u00f5es de \u00e1gua. Esses 3 problemas podem ocorrer separadamente ou de forma conjunta, o que agrava ainda mais o risco de rompimento das adutoras de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Considerando que a Cedae opera o sistema de produ\u00e7\u00e3o e as concession\u00e1rias s\u00e3o respons\u00e1veis pela distribui\u00e7\u00e3o, como essa rela\u00e7\u00e3o pode ser aprimorada para garantir maior efici\u00eancia e transpar\u00eancia no fornecimento de \u00e1gua?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u00c9 fundamental que haja um processo de licenciamento e fiscaliza\u00e7\u00e3o ambientais eficientes nos processos do sistema de produ\u00e7\u00e3o (operado pela CEDAE) e de distribui\u00e7\u00e3o (operado pelas concession\u00e1rias), para dar garantia de uma boa opera\u00e7\u00e3o dessas atividades de abastecimento de \u00e1gua sem prejudicar a popula\u00e7\u00e3o e visando garantir a sustentabilidade ambiental de todo o sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Diante de desafios como crescimento populacional e eventos clim\u00e1ticos extremos, quais seriam as solu\u00e7\u00f5es de m\u00e9dio e longo prazo para assegurar uma gest\u00e3o sustent\u00e1vel do abastecimento h\u00eddrico na regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u00c9 fundamental se priorizar:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">a) a recupera\u00e7\u00e3o ambiental dos mananciais h\u00eddricos, que hoje se encontram bastante degradados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">b) Deve-se tamb\u00e9m garantir um crescimento urbano e rural ordenado, preservando-se e recuperando-se as \u00e1reas verdes, controlando-se as eros\u00f5es do solo e ampliando-se as recargas subterr\u00e2neas das \u00e1guas de chuvas. Isso vai reduzir as enchentes no per\u00edodo chuvoso do ano hidrol\u00f3gico e maximizar as vaz\u00f5es h\u00eddricas fluviais nos per\u00edodos de estiagem do ano hidrol\u00f3gico. Deve-se regular o crescimento da \u00e1rea urbana \u00e0s disponibilidades h\u00eddricas dispon\u00edveis na bacia, para se evitar um colapso no abastecimento de \u00e1gua para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">c) Al\u00e9m disso, deve-se implantar pol\u00edticas p\u00fablicas para controlar a polui\u00e7\u00e3o dos mananciais h\u00eddricos a partir de uma gest\u00e3o sustent\u00e1vel e integrada do saneamento b\u00e1sico, dentro do conceito da economia circular; deve-se priorizar o reaproveitamento do lodo dos esgotos org\u00e2nicos e dos restos de comida dos res\u00edduos s\u00f3lidos como composto org\u00e2nico, para baratear a recupera\u00e7\u00e3o do solo e o reflorestamento (reduzindo enchentes fluviais e aumentando as vaz\u00f5es m\u00ednimas dos rios), e priorizar o re\u00faso dos esgotos tratados; essas medidas&nbsp;protegem os mananciais h\u00eddricos e viabilizam economicamente o saneamento b\u00e1sico em suas 4 vertentes (abastecimento de \u00e1gua, drenagem, saneamentos dos esgotos sanit\u00e1rios e gest\u00e3o de res\u00edduos s\u00f3lidos).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">d) a melhoria dos processos de licenciamento e fiscaliza\u00e7\u00e3o ambientais dos empreendimentos potencialmente impactantes nas bacias hidrogr\u00e1ficas dos mananciais h\u00eddricos, incluindo processos de monitoramento ambiental eficientes e representativos dos processos operativos desses empreendimentos;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">e) Se implantar um programa de monitoramento ambiental permanente hidrom\u00e9trico e de qualidade de \u00e1gua dos rios e por&nbsp;georeferenciamento do uso e ocupa\u00e7\u00e3o do solo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Para que essas metas sejam atingidas \u00e9 fundamental que se aprimorem as pol\u00edticas p\u00fablicas para a gest\u00e3o sustent\u00e1vel de fato das bacias hidrogr\u00e1ficas dos mananciais h\u00eddricos e que garantam uma atua\u00e7\u00e3o eficiente e efetiva das concession\u00e1rias respons\u00e1veis pelos servi\u00e7os de abastecimento de \u00e1gua para a popula\u00e7\u00e3o na Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um momento em que muitos bairros do Rio de Janeiro est\u00e3o atravessando uma crise de abastecimento de \u00e1gua, faz-se cada vez mais necess\u00e1ria uma conversa sobre a quest\u00e3o h\u00eddrica, com um enfoque em desenvolvimento sustent\u00e1vel. Para falar sobre o tema, convidamos o professor Adacto Benedicto Ottoni, autor do livro \u201cA import\u00e2ncia do saneamento integrado e sustent\u00e1vel para viabilizar o combate \u00e0 crise h\u00eddrica: o caso das bacias do Guandu e Para\u00edba do Sul\u201d, lan\u00e7amento de 2024 da EdUERJ. Ottoni \u00e9 professor do Departamento de Engenharia Sanit\u00e1ria e do Meio Ambiente da UERJ. A entrevista foi concedida por email. 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