{"id":37595,"date":"2025-02-04T15:09:12","date_gmt":"2025-02-04T18:09:12","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=37595"},"modified":"2025-02-04T15:09:14","modified_gmt":"2025-02-04T18:09:14","slug":"entrevista-com-luis-felipe-silveira-de-abreu-vencedor-do-premio-uerj-de-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/entrevista-com-luis-felipe-silveira-de-abreu-vencedor-do-premio-uerj-de-literatura\/","title":{"rendered":"Entrevista com Luis Felipe Silveira de Abreu, vencedor do Pr\u00eamio UERJ de Literatura"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">S\u00e3o Sebasti\u00e3o \u00e9 o vencedor do Pr\u00eamio UERJ de Literatura. <em>O Blog da EdUERJ conversou com Luis Felipe Silveira de Abreu<\/em>, autor do titulo, que, al\u00e9m de escritor, \u00e9 professor e cursa p\u00f3s-doutorado na UFRJ.Luis Felipe falou sobre o processo de escrita, suas influ\u00eancias liter\u00e1rias e a proposta adotada em S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Constru\u00edda com estrutura de uma road novel, a fic\u00e7\u00e3o contempla, por meio de reminisc\u00eancias do protagonista, \u201cuma hist\u00f3ria familiar, em tom intimista, sobre uma rela\u00e7\u00e3o entre pai e filho\u201d e aborda contextos sens\u00edveis como o da pandemia de Covid e a crise da AIDS nos anos 1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre o tema central de\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o?<\/strong><br>A novela amarra no tempo duas pandemias a partir do relato do narrador, um dramaturgo internado em uma UTI de COVID-19 e que, em seu del\u00edrio induzido pela seda\u00e7\u00e3o, conta duas hist\u00f3rias paralelas: as lembran\u00e7as de uma viagem de carro feita com o pai, tendo como pano de fundo a crise da AIDS no come\u00e7o dos anos 1990; e tamb\u00e9m um mon\u00f3logo teatral que reconta a vida de\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o, figura que \u00e9 a um s\u00f3 tempo padroeiro dos doentes e figura simb\u00f3lica da cultura\u00a0<em>queer\u00a0<\/em>(ambival\u00eancia que por si s\u00f3 j\u00e1 inspirou boa parte da trama). \u00c9 uma hist\u00f3ria sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a mem\u00f3ria pessoal e a coletiva, refletindo os ecos entre gera\u00e7\u00f5es dos traumas e trag\u00e9dias hist\u00f3ricas. Mas \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria familiar, em tom intimista, sobre uma rela\u00e7\u00e3o entre pai e filho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Quem\u00a0s\u00e3o\u00a0os personagens principais?<\/strong><br>Sendo uma novela curta, e com seu escopo narrativo concentrado em uma hist\u00f3ria familiar, temos poucos personagens &#8211; mas que se desdobram em figuras m\u00faltiplas. O foco da hist\u00f3ria \u00e9 o dramaturgo, nunca nomeado, que existe na trama em tr\u00eas vers\u00f5es: como narrador, no presente; nas mem\u00f3rias de sua inf\u00e2ncia, em 1993; e como\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o, personagem que interpreta em seus trabalhos e que costura os dois tempos narrativos anteriores. Temos tamb\u00e9m a figura do pai, igualmente sem nome, homem de segredos que constituem o centro de gravidade da trama. H\u00e1 outra s\u00e9ries de personagem que pai e filho encontram no decorrer da sua viagem, mas que interessam apenas na medida em que abrem aspectos da rela\u00e7\u00e3o entre os dois protagonistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> O livro faz refer\u00eancia ao per\u00edodo da epidemia de AIDS e tamb\u00e9m \u00e0 Covid. Como surgiu a proposta de contemplar esses per\u00edodos no roteiro?<br><\/strong>Eu acredito no poder (e na necessidade) da representa\u00e7\u00e3o ficcional para entendermos melhor o mundo. Nossos dramas e nossas trag\u00e9dias, sobretudo, como o luto, parecem pedir por uma reelabora\u00e7\u00e3o narrativa, hist\u00f3rias que nos permitam organizar nossos afetos. Pensando nisso, quis experimentar nesse livro uma tentativa de dar conta dessas duas epidemias. Ambas me parecem representativas dos modos pelos quais lidamos com nossas crises: no desejo de superar e seguir em frente, silenciamos suas hist\u00f3rias &#8211; sem perceber que suas heran\u00e7as seguem trabalhando e marcando nossa vida. Ao querer abordar a Covid, pensei que retomar a mem\u00f3ria da AIDS serviria para iluminar colateralmente ambas as experi\u00eancias; como, dentro da pr\u00f3pria trama, o narrador usa dos mart\u00edrios de\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o\u00a0para entender a pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Em termos de estilo liter\u00e1rio, como voc\u00ea descreveria\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o?<\/strong><br>Sempre gosto de brincar com os g\u00eaneros liter\u00e1rios, usando de suas molduras e conven\u00e7\u00f5es como um espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o.\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o\u00a0n\u00e3o \u00e9 diferente, sendo constru\u00eddo como uma\u00a0<em>road novel<\/em>, um romance de estrada. Assim, pude ter uma base narrativa s\u00f3lida e linear, a partir da qual se permitem algumas experimenta\u00e7\u00f5es com os pontos de vistas e o tempos do relato. J\u00e1 em termos de prosa, tentei criar uma bifurca\u00e7\u00e3o de estilos: as se\u00e7\u00f5es que relatam a viagem do narrador escritas de modo mais direto, influenciado pelo olhar infantil que ele possu\u00eda \u00e0 \u00e9poca; j\u00e1 as partes do mon\u00f3logo de\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o\u00a0t\u00eam uma prosa mais barroca, derramada, marca, ao mesmo tempo da exposi\u00e7\u00e3o emocional da pe\u00e7a e do tom de del\u00edrio dessa sua reencena\u00e7\u00e3o do mon\u00f3logo em um leito de UTI. Em determinado momentos esses registros passam a se misturar &#8211; forma do livro demarcar o mergulho progressivo do narrador em sua seda\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de representar a longa sombra dos traumas que \u00e9 tema da novela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Como funciona o seu processo de escrita? Voc\u00ea adota algum tipo de rotina ou pr\u00e1tica espec\u00edficas quando inicia um livro?<\/strong><br>Adoraria ter uma rotina di\u00e1ria de escrita liter\u00e1ria, mas ela nem sempre \u00e9 poss\u00edvel j\u00e1 que disputa espa\u00e7o no meu cotidiano com outras demandas profissionais. Quando quero desenvolver projetos mais longos, como um romance ou uma novela, acabo apostando mais na imers\u00e3o, aproveitando oportunidades de tempo (como f\u00e9rias&#8230;) e dedicando alguns meses a eles, apostando em horas e horas de escrita di\u00e1ria. Nesses momentos, gosto tamb\u00e9m de me cercar de refer\u00eancias e inspira\u00e7\u00f5es, lendo v\u00e1rios livros e assistindo v\u00e1rios filmes que acredito terem alguma resson\u00e2ncia (n\u00e3o s\u00f3 tem\u00e1tica, mas tamb\u00e9m atmosf\u00e9rica ou temporal) com o que quero produzir. Nesse processo, n\u00e3o costumo trabalhar com grandes roteiros pr\u00e9vios, apenas com uma ideia b\u00e1sica da trama e do tema, deixando a prosa guiar e descobrir caminhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Quem\u00a0s\u00e3o\u00a0os autores que mais marcaram a sua persona como leitor\/escritor?<br><\/strong>Sempre tive uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com a literatura brasileira, marcada por uma proximidade e um interesse no trabalho de nomes como Caio Fernando Abreu, Ana Cristina C\u00e9sar, Jo\u00e3o Gilberto Noll e S\u00e9rgio Sant&#8217;anna. Me interessa na obra deles as misturas de g\u00eaneros, a constru\u00e7\u00e3o de atmosferas, o apelo ao pop como um afeto geracional, o interesse em entender o Brasil pelas suas margens &#8211; caracter\u00edsticas que tento trazer tamb\u00e9m em\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o. Al\u00e9m disso, tenho uma influ\u00eancia formativa de Roberto Bola\u00f1o, que comparece em tudo que escrevo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Em 2024, voc\u00ea publicou \u201cAs rimas internas\u201d pela Editora Aboio e agora ter\u00e1 a novela\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o\u00a0publicada pela EdUERJ. Hoje, como voc\u00ea avalia as possibilidades oferecidas pelo mercado liter\u00e1rio aos novos escritores?<br><\/strong>Acho que \u00e9 um mercado, ao mesmo tempo, receptivo e competitivo aos novos escritores. Temos hoje uma variedade de casas editoriais independentes ou de m\u00e9dio porte que podem servir de porta de entrada a autores iniciantes; isso sem falar no fen\u00f4meno crescente da autopublica\u00e7\u00e3o. Mas me parece tamb\u00e9m haver uma certa satura\u00e7\u00e3o de mercado a partir disso, que leva a poucos livros encontrarem de fato seus leitores. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca a um pa\u00eds de pouco incentivo \u00e0 cultura, com n\u00fameros cada vez menores de leitores, etc. Por isso acredito na import\u00e2ncia tamb\u00e9m de outros atores nesse cen\u00e1rios &#8211; como festivais, livrarias, pr\u00eamios e at\u00e9 a pr\u00f3pria universidade -, n\u00e3o s\u00f3 em promover novos nomes em espec\u00edficos, mas sobretudo ajudar a fomentar uma cultura liter\u00e1ria e o acesso a esta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Voc\u00ea venceu a primeira edi\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio UERJ de Literatura. Que significado tem essa conquista para voc\u00ea?<br><\/strong>\u00c9 uma alegria muito grande a conquista desse pr\u00eamio, por representar um reconhecimento do meu trabalho, como um autor ainda iniciante, e tamb\u00e9m por permitir que\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o\u00a0possa chegar aos leitores. Ter a novela avaliada por um j\u00fari t\u00e3o competente e sens\u00edvel me faz acreditar na for\u00e7a e potencial do livro. Al\u00e9m disso, \u00e9 gratificante esse reconhecimento por parte da EdUERJ, uma casa representativa para a literatura e a academia brasileiras; fico bastante orgulhoso de agora participar desse movimento da editora em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Quem\u00a0s\u00e3o\u00a0os leitores que voc\u00ea espera conquistar com\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o?<br><\/strong>Imagino que este livro vai interessar aqueles curiosos em pensar sobre a hist\u00f3ria recente do nosso pa\u00eds, aqueles que gostam de refletir sobre nossas heran\u00e7as e mem\u00f3rias. Mas tamb\u00e9m, pelo foco na narrativa entre pai e filho, e o interesse em investigar os mecanismos internos dessa rela\u00e7\u00e3o familiar, creio que\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o\u00a0possa se conectar a qualquer leitor que busque uma hist\u00f3ria emocional, afetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> Por fim, desejamos boa sorte a\u00a0S\u00e3o\u00a0Sebasti\u00e3o\u00a0e muito sucesso para a cerim\u00f4nia de lan\u00e7amento!<br><\/strong>S\u00f3 tenho a agradecer a EdUERJ por essa oportunidade de compartilhar meu trabalho. Aguardo ansioso pelo lan\u00e7amento!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Foto: Italo Almeida<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Sebasti\u00e3o \u00e9 o vencedor do Pr\u00eamio UERJ de Literatura. 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