{"id":38092,"date":"2025-04-14T15:59:55","date_gmt":"2025-04-14T18:59:55","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=38092"},"modified":"2025-04-16T13:08:55","modified_gmt":"2025-04-16T16:08:55","slug":"entrevista-com-marco-aurelio-correa-martins-sobre-livro-um-sistema-provincial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/entrevista-com-marco-aurelio-correa-martins-sobre-livro-um-sistema-provincial\/","title":{"rendered":"Entrevista com Marco Aur\u00e9lio Corr\u00eaa Martins sobre livro &#8220;Um sistema provincial&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">No dia  29 de abril, \u00e0s 19h, a EdUERJ lan\u00e7a &#8220;Um sistema provincial de ensino no s\u00e9culo XIX&#8221;, na Livraria da travessa de Botafogo. O Blog da EdUERJ conversou com o autor, o professor da Unirio, Marco Aur\u00e9lio Corr\u00eaa Martins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: O livro traz uma abordagem dos prim\u00f3rdios da educa\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro. Como surgiu o interesse pelo tema?&nbsp;&nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O historiador ingl\u00eas E. P. Thompson chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o para a hist\u00f3ria da classe oper\u00e1ria inglesa no seguinte termo: se existe uma classe oper\u00e1ria, certamente ela tem uma hist\u00f3ria. Ou seja, n\u00e3o caiu do c\u00e9u azul como um raio. Nesse sentido, venho vasculhando a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o em busca de uma origem para aquilo que chamamos de \u201cescola cat\u00f3lica\u201d. \u00c9 uma pesquisa ainda inacabada embora j\u00e1 bem desenvolvida. Mas foi um caso fortuito que me levou a privilegiar o sistema p\u00fablico de instru\u00e7\u00e3o: a invas\u00e3o ao site da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Sem acesso a essa fonte de pesquisa, fui aos relat\u00f3rios de presidentes da prov\u00edncia do Rio de Janeiro em busca das origens da escola cat\u00f3lica no meio pol\u00edtico da prov\u00edncia. Ao faz\u00ea-lo, fui entrando em contato com a estrutura criada e aperfei\u00e7oada de um sistema p\u00fablico de ensino. Esses relat\u00f3rios foram institu\u00eddos por lei, em 1834, e eram, portanto, obrigat\u00f3rios. Os presidentes precisavam abrir o ano da Assembleia Provincial com a leitura desse relat\u00f3rio que acumulava dados, \u00e0s vezes bem detalhados, das diversas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica, com estat\u00edsticas e or\u00e7amentos, avalia\u00e7\u00f5es, proposi\u00e7\u00f5es etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Um inc\u00f4modo que sinto como pesquisador da hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 ver o \u00faltimo quartel do XIX apresentado como O s\u00e9culo XIX. E a pesquisa revelava uma atividade intensa em gerar escolariza\u00e7\u00e3o na prov\u00edncia; a regi\u00e3o crescia muito rapidamente com a expans\u00e3o cafeeira, no segundo e terceiro quarteis do s\u00e9culo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong> <strong>Voc\u00ea apresenta v\u00e1rias min\u00facias sobre a instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica a partir da instala\u00e7\u00e3o da Assembleia Provincial em 1835 at\u00e9 1875, com dados dos relat\u00f3rios de presidentes da prov\u00edncia do Rio de Janeiro. Como se deu esse trabalho de pesquisa? Quais foram os maiores desafios?&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O trabalho b\u00e1sico do pesquisador \u00e9 ler os documentos. Li mais de oitenta relat\u00f3rios relativos a 40 anos. N\u00e3o \u00e9 exatamente o esfor\u00e7o da leitura que caracteriza o desafio, mas perceber as nuances e vicissitudes do tempo hist\u00f3rico: distinguir uma linha de racioc\u00ednio de outra, de uma varia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ter aten\u00e7\u00e3o \u00e0 ret\u00f3rica e a desconfiar daquilo que parece \u00f3bvio. Para compreender aquilo que n\u00e3o est\u00e1 no documento como, por exemplo, o conflito da Assembleia com o presidente Aureliano Coutinho no final da d\u00e9cada de 1840, foi preciso recorrer a outros estudos e outras fontes de pesquisa para entender que o conflito n\u00e3o estava no tema da instru\u00e7\u00e3o, mas nas intrigas palacianas da capital imperial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Os relat\u00f3rios dos presidentes est\u00e3o todos digitalizados e dispon\u00edveis na internet pelo <em>Center for Research Libreries<\/em>, formado por um cons\u00f3rcio de bibliotecas desde 1946 e sediado em Chicago. Assim, n\u00e3o foi t\u00e3o dif\u00edcil acessar os documentos. Entretanto, para ter acesso aos textos legais, ou seja, \u00e0s leis que eram mencionadas foram necess\u00e1rios tr\u00eas anos de peregrina\u00e7\u00e3o em acervos on-line e f\u00edsicos. Esse conjunto de leis seria trazido como anexo do livro, mas pelo volume, ficou invi\u00e1vel, e estou compartilhando para outros pesquisadores em outro livro, no formato digital, com 500 p\u00e1ginas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Quando voc\u00ea sente o desafio de buscar as fontes, percebe o desafio cotidiano dos profissionais dedicados aos arquivos documentais, especialmente os hist\u00f3ricos. Esses profissionais e suas institui\u00e7\u00f5es precisam e merecem um maior destaque e aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Trabalhar com dados estat\u00edsticos e censit\u00e1rios tamb\u00e9m foi um desafio. N\u00e3o tanto pelos n\u00fameros, pois s\u00f3 militei com uma estat\u00edstica muito b\u00e1sica. Mas usar esse instrumento na compreens\u00e3o da hist\u00f3ria, ou como prefiro, na compreens\u00e3o da temporalidade hist\u00f3rica. N\u00e3o temos usado muito esse instrumento na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ:<\/strong>&nbsp; <strong>A pesquisa abrange quarenta anos de idas e vindas do papel do Estado na educa\u00e7\u00e3o. Quais quest\u00f5es foram preponderantes durante essa trajet\u00f3ria do ensino?&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Inicialmente, e logo no primeiro ano da administra\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia separada da administra\u00e7\u00e3o da corte imperial, ou seja, 1835, havia um projeto de instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica marcado por regulamentos, cria\u00e7\u00e3o de escolas e estrutura de funcionamento e recrutamento de professores. Esse projeto foi muitas vezes modificado, mas nunca deixou de existir. Acredito, como Ant\u00f4nio C\u00e2ndido, que isso se deveu aos funcion\u00e1rios de carreira do Estado, aqueles que n\u00e3o eram diretamente ligados a pol\u00edticos e seus partidos, ou seja, n\u00e3o eram colocados e retirados conforme o tempo eleitoral, mas permaneciam em suas fun\u00e7\u00f5es enquanto os governantes se sucediam. Alguns deputados provinciais poderiam entrar nessa conta como Montezuma e Luiz Hon\u00f3rio Vieira Souto eleitos e reeleitos muitas vezes. Sobretudo esse \u00faltimo, era considerado verdadeiro <em>vade mecun<\/em> da Assembleia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, chamou a aten\u00e7\u00e3o o diminuto n\u00famero de crian\u00e7as nas escolas. Enquanto se costuma reclamar da falta de escolas, faltavam crian\u00e7as, ou seja, sobravam vagas. A an\u00e1lise dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa e me mantive ligado ao que diziam as fontes. Entretanto, para ir um pouco mais al\u00e9m, fui anotando os dados estat\u00edsticos. Esses dados eram recrutados por for\u00e7a de lei, mas eram muito sonegados por aqueles de \u201cde longe\u201d que deveriam entreg\u00e1-los. H\u00e1 registros em jornais da \u00e9poca e mesmo em documentos de \u201cboatos\u201d que circulavam nos rinc\u00f5es sempre em desconfian\u00e7a dos governos. Eram as <em>fake News<\/em> da \u00e9poca que circulavam por anos, embora lentamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Outra quest\u00e3o intrigante foi observar a evolu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria sempre exponencialmente aumentada. Somos ainda influenciados pela narrativa republicana de descr\u00e9dito do Imp\u00e9rio, em especial sobre o Segundo Imp\u00e9rio quanto a um suposto abandono da causa escolar e a pesquisa revela que houve forte incremento da instru\u00e7\u00e3o nos or\u00e7amentos. Ainda hoje, padecemos dessa submiss\u00e3o ao que os republicanos disseram sobre seus advers\u00e1rios derrotados. Para fora dessa quest\u00e3o, ficou bem marcado o esfor\u00e7o de fazer lograr esse sistema. Embora algumas quest\u00f5es sejam estranhas, como negar financiamento aos poss\u00edveis professores a serem formados na Escola Normal; investiu-se na escola e mesmo investiu-se em forma\u00e7\u00e3o de professores, mas negaram recursos para que pessoas se deslocassem das vilas interiores para a capital Niter\u00f3i a fim de formarem-se. Reputo a essa resist\u00eancia ao pensamento liberal da \u00e9poca que acreditava na tese do self made man.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O pensamento liberal era o principal vetor do pensamento pol\u00edtico. Liberais e Conservadores, referindo-me aos partidos, eram ligados a alguma corrente do pensamento liberal, inicialmente vindo da Inglaterra passando ao movimento franc\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ:  Como as tend\u00eancias pol\u00edticas se refletiam no ensino da \u00e9poca?&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O modelo proposto para a did\u00e1tica escolar era o m\u00e9todo monitorial ingl\u00eas, conhecido como M\u00e9todo Lancaster. Mas foi o projeto de instru\u00e7\u00e3o nacional francesa o grande inspirador dos primeiros presidentes da prov\u00edncia, conhecidos na pol\u00edtica como os Saquaremas, membros do Partido Conservador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Seguindo a linha de reflex\u00e3o hist\u00f3rica de Ilmar Matos, os Saquaremas foram os articuladores do Estado Nacional brasileiro centralizado sob a oposi\u00e7\u00e3o dos liberais alinhados no Partido Liberal. A composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre a centraliza\u00e7\u00e3o e a descentraliza\u00e7\u00e3o, ou maior poder nas prov\u00edncias e munic\u00edpios diante do poder central, parece refletir no modo como se organizou esse sistema de instru\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Na pr\u00e1tica se p\u00f5e um regulamento geral, com um controle central, mas faz-se a inspe\u00e7\u00e3o local com os pr\u00f3prios locais. Ou seja, competiria \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local e seus representantes a fiscaliza\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o imediata do sistema escolar. Isso me parece uma negocia\u00e7\u00e3o do tipo \u00e0 descrita por Ilmar Matos em \u201cO tempo Saquarema\u201d, entre \u201cos de longe\u201d e \u201cos de perto\u201d, ou seja, o poder radicado em Niter\u00f3i e o poder disperso no interior da prov\u00edncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica de nomea\u00e7\u00e3o do presidente pelo poder central do Imp\u00e9rio, descrita no corpo do Imperador, fazia circular ideias e pr\u00e1ticas entre as prov\u00edncias. Por exemplo, a passagem de Couto Ferraz na prov\u00edncia do Esp\u00edrito Santo, na Prov\u00edncia do Rio de Janeiro e na capital imperial em sequ\u00eancia continua, na qual ele reformou a instru\u00e7\u00e3o nas tr\u00eas unidades, promovendo um controle estatal maior sobre a instru\u00e7\u00e3o particular, trazendo-a para o controle do setor p\u00fablico\/estatal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Voltando ao sistema franc\u00eas, ele foi o modelo de forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o\/s\u00fadito do Estado moderno. O modelo franco-prussiano foi o grande inspirador desse processo de forma\u00e7\u00e3o dos nacionais nos sistemas ocidentais. Quanto a isso, n\u00e3o parece ter havido diverg\u00eancia entre Conservadores e Liberais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Outro tipo de tend\u00eancia pol\u00edtica a qual n\u00e3o dei maior destaque, sobretudo porque foquei mais na estrutura e na pol\u00edtica do sistema de instru\u00e7\u00e3o, foi a negocia\u00e7\u00e3o que visava \u00e0s bases eleitorais dos deputados e pol\u00edticos da administra\u00e7\u00e3o. Entretanto, em alguns momentos, as chamadas \u201cintrigas palacianas\u201d ou as disputas incitadas pelo projeto de \u201cconcilia\u00e7\u00e3o\u201d produziram efeitos nesse projeto. \u00c9 nesse ritmo que os Liberais v\u00e3o aprovar, no final da d\u00e9cada de 1860, a \u201clei da liberdade do ensino\u201d, nome que eles mesmos propuseram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A \u201cliberdade de ensino\u201d propunha a retirada do regramento p\u00fablico sobre a iniciativa particular. Serviu mesmo para incentiv\u00e1-la, afinal o pensamento liberal estimulava esse tipo de \u201cliberdade\u201d. Entretanto, a lei n\u00e3o ensejou o fim do sistema p\u00fablico, tampouco o abandono desse sistema, embora houvesse algum esfor\u00e7o em tornar particulares as iniciativas mais custosas para a Prov\u00edncia e, tamb\u00e9m, de financiar iniciativas particulares atrav\u00e9s da pol\u00edtica e subven\u00e7\u00f5es. Dar dinheiro p\u00fablico a particulares na escolariza\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo sofria forte resist\u00eancia!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Como era pensado o ensino na prov\u00edncia do Rio de Janeiro? Que tipo de cidad\u00e3o a escola pretendia formar?&nbsp; E a quem ela de fato atendia?&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Acho que j\u00e1 falei um pouco sobre a primeira parte da quest\u00e3o. Mas vele a pena repetir: o ensino era pensado a partir de um modelo de cidad\u00e3o\/s\u00fadito do Estado moderno europeu, especialmente a Fran\u00e7a da p\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o de 1830, de fei\u00e7\u00e3o urbana e burguesa. O primeiro regulamento da instru\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia foi todo montado sobre a lei francesa, conhecida como Reforma Guizot, de 1833. Ent\u00e3o, o ensino era pensado para a inven\u00e7\u00e3o de uma nacionalidade. Est\u00e1vamos a pouco mais de 10 anos da emancipa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A escola pretendia atender aos brasileiros livres e dar-lhes status superior na sociedade por serem instru\u00eddos nas aulas de instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria que consistia em ler, escrever, contar e rudimentos de hist\u00f3ria e geografia p\u00e1tria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Um limitador desse projeto era o tamanho do territ\u00f3rio e sua ocupa\u00e7\u00e3o. As vilas eram distantes umas das outras, seu territ\u00f3rio coberto por florestas sendo substitu\u00edda por grandes planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9. A vida rural, distante da urbana, tinha p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de acesso e mobilidade f\u00edsica e social. O sistema escravista e o sistema de colonato pareceram-me influir na conforma\u00e7\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o. Infelizmente n\u00e3o pude explorar esse tema buscando dos historiadores a compreens\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Voc\u00ea acredita que a independ\u00eancia de Portugal tenha deixado um lastro de dificuldades para a prov\u00edncia do Rio de Janeiro?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">S\u00f3 posso falar do sistema de instru\u00e7\u00e3o. Da Independ\u00eancia at\u00e9 o Ato Adicional da Constitui\u00e7\u00e3o em 1834, as poucas escolas existentes no territ\u00f3rio fluminense estavam vagas por falta de professores; ou seja, n\u00e3o funcionavam. A partir da institui\u00e7\u00e3o de um governo regional fluminense, separado do governo central da capital Rio de Janeiro, \u00e9 que se criou e impulsionou o sistema escolar. Nesse caso, eu diria que a independ\u00eancia, ao se consolidar no projeto de um governo regional para a prov\u00edncia, sim, deixou um lastro, mas n\u00e3o de dificuldades, ao contr\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Aproveito para lembrar que para al\u00e9m das quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais, como a mencionada quest\u00e3o do trabalhador, o Rio de Janeiro foi o grande centro econ\u00f4mico do pa\u00eds com a <em>plantation<\/em> do caf\u00e9. N\u00e3o \u00e9 apenas uma for\u00e7a pol\u00edtica, mas uma for\u00e7a econ\u00f4mica arrastando um grande contingente de pessoas das prov\u00edncias de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, al\u00e9m da regi\u00e3o de Campos dos Goytacazes para o interior do Vale do Para\u00edba do Sul. A modifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio foi r\u00e1pida e crescente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Um dos cap\u00edtulos cita um per\u00edodo em que havia mais escolas do que crian\u00e7as. Por que ocorreu tal situa\u00e7\u00e3o?&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Isso aconteceu em todo esse per\u00edodo de 40 anos. A gente se acostumou a ouvir e falar da falta de escolas e toma um susto quando se depara com essa situa\u00e7\u00e3o. Elenquei os argumentos da \u00e9poca para isso: a falta de uma pedagogia, a falta de uma sociologia, o preconceito expresso no conceito de \u201cinc\u00faria\u201d, a quest\u00e3o das dist\u00e2ncias dos caminhos, a falta de casas adequadas para funcionamento, a falta de professores e de professores habilitados e a desconfian\u00e7a sobre a\u00e7\u00f5es do Estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Faltou explorar as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do regime de m\u00e3o-de-obra da \u00e9poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;<strong>Blog da EdUERJ:     Voc\u00ea acredita que os problemas da educa\u00e7\u00e3o do per\u00edodo estudado tenham ainda similaridades com os do cen\u00e1rio atual?&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da falta de crian\u00e7as, salta aos olhos a falta de professores, tanto habilitados como n\u00e3o habilitados. \u00c9 bom olhar para o passado e abrir os olhos para o presente e o futuro: caminhamos nessa mesma situa\u00e7\u00e3o para pior. Olhar para o passado no qual se dizia que o professor era pouco reconhecido e valorizado, era mal remunerado, trabalhando em instala\u00e7\u00f5es improvisadas, carente de material did\u00e1tico-pedag\u00f3gico&#8230; Nosso passado assombra nosso futuro! \u00c0s vezes digo que ainda vivemos quest\u00f5es do s\u00e9culo XIX.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A liberdade de ensino separou as escolas entre as gratuitas e as pagas determinando uma diferencia\u00e7\u00e3o social no interior da sociedade, em contraste com o modelo franc\u00eas que copiava. Essa separa\u00e7\u00e3o hoje salta aos olhos quando andamos pelas cidades, das grandes \u00e0s menores&#8230; escola para o que tem dinheiro e para os que n\u00e3o t\u00eam: e isso \u00e9 vis\u00edvel do pr\u00e9dio ao material escolar, do transporte ao destino dos estudantes de cada tipo de escola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Falta di\u00e1logo horizontal entre os que governam e administram os sistemas e os que fazem acontecer os objetivos dessa instru\u00e7\u00e3o escolar. Nesse sistema do XIX imperava a ideia da \u201craz\u00e3o de Estado\u201d na qual tudo o que se oferecia estava em vistas do bem p\u00fablico promovido pelo Estado; hoje, pensamos que \u00e9 um direito da pessoa. L\u00e1 n\u00e3o havia esse direito social. O direito social \u00e0 educa\u00e7\u00e3o s\u00f3 entra em pauta nos movimentos publicistas da d\u00e9cada de 1920 e seguintes e ainda hoje s\u00e3o motivo de disputa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Acreditava-se que a instru\u00e7\u00e3o escolar modificava o destino das crian\u00e7as. Ainda hoje se cr\u00ea nisso. Isso \u00e9 uma fal\u00e1cia! Virou um jarg\u00e3o bonito de se dizer! N\u00e3o pretendo afirmar que a escolariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o modifica a vida das pessoas, mas pretendo dizer que isso n\u00e3o \u00e9 uma verdade geral: n\u00e3o se aplica \u00e0 grande parte da popula\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o \u00e0 sua maioria. A escola \u00e9 uma produtora de fracasso tamb\u00e9m!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O modelo escolar era o da Europa, das \u201cgrandes na\u00e7\u00f5es civilizadas\u201d, como diziam \u00e0 \u00e9poca. Ainda hoje o modelo continua o mesmo! Com todas as quest\u00f5es e diversidades que s\u00e3o introduzidas na educa\u00e7\u00e3o escolar, o popular n\u00e3o se encontra nessa estrutura, na cultura e na ritual\u00edstica institucional, na tem\u00e1tica e no material did\u00e1tico-pedag\u00f3gico, nessa estranha \u201cm\u00e1quina de entortar gente\u201d, \u201cPorque essa bela argila humana se estraga assim?\u201d direi parodiando Saint Exup\u00e9ry. \u00c9 preciso olhar para n\u00f3s mesmos, para nossa hist\u00f3ria, para nossa diversidade social e cultural, celebrar a conviv\u00eancia da pluralidade que nos torna \u00fanicos e a partir desse reconhecimento, promover uma educa\u00e7\u00e3o que nos transforme sem nos negar.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Por fim, qual leitor voc\u00ea espera alcan\u00e7ar com o lan\u00e7amento de Um sistema provincial de ensino no XIX?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Esperar alcan\u00e7ar um p\u00fablico enorme \u00e9 um sonho de \u00cdcaro. Perto do sol nossas asas derretem!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, o texto deve interessar a um p\u00fablico especializado na pesquisa em hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o e na hist\u00f3ria do Brasil. Em segundo lugar, aos que militam no ensino da hist\u00f3ria e n\u00e3o somente da hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o. \u00c0queles que v\u00eam no XIX um n\u00f3 hist\u00f3rico ainda n\u00e3o devidamente desatado. Ao p\u00fablico em geral que ama a hist\u00f3ria, o conhecimento e possa se reconhecer nessas letras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Eu gostaria que as pessoas que atuam na gest\u00e3o p\u00fablica da educa\u00e7\u00e3o escolar, especialmente nos governos eleitos, conhecessem nossa hist\u00f3ria. Conhecessem de fato, de corpo e mente. As disputas s\u00e3o boas fontes de conhecimento e de marcha pol\u00edtica, mas precisamos de um norte de b\u00fassola, n\u00e3o um norte que se finca aqui ou ali. Precisamos de um projeto de futuro. Eu falo de 150 anos atr\u00e1s: o que esperar de 150 anos \u00e0 frente? Creio que esse horizonte ainda est\u00e1 na utopia, naquele \u201cexato\u201d lugar algum. Digo isso enquanto n\u00e3o perceber que o horizonte nos retorne a n\u00f3s mesmos e n\u00e3o outro povo que n\u00e3o somos.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 29 de abril, \u00e0s 19h, a EdUERJ lan\u00e7a &#8220;Um sistema provincial de ensino no s\u00e9culo XIX&#8221;, na Livraria da travessa de Botafogo. O Blog da EdUERJ conversou com o autor, o professor da Unirio, Marco Aur\u00e9lio Corr\u00eaa Martins. Blog da EdUERJ: O livro traz uma abordagem dos prim\u00f3rdios da educa\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro. Como surgiu o interesse pelo tema?&nbsp;&nbsp;&nbsp; O historiador ingl\u00eas E. P. Thompson chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o para a hist\u00f3ria da classe oper\u00e1ria inglesa no seguinte termo: se existe uma classe oper\u00e1ria, certamente ela tem uma hist\u00f3ria. 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