{"id":39560,"date":"2026-08-10T14:31:40","date_gmt":"2026-08-10T17:31:40","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=39560"},"modified":"2026-08-10T14:31:48","modified_gmt":"2026-08-10T17:31:48","slug":"professor-gustavo-bernardo-fala-sobre-o-cortico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/professor-gustavo-bernardo-fala-sobre-o-cortico\/","title":{"rendered":"Professor Gustavo Bernardo fala sobre &#8220;O corti\u00e7o&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Leitura indicada para o Vestibular 2027 da UERJ, &#8220;O corti\u00e7o&#8221;, de Alu\u00edsio Azevedo,  recebeu uma vers\u00e3o pela cole\u00e7\u00e3o EdUERJ de Bolso, s\u00e9rie vestibular. O Blog da EdUERJ conversou com o professor Gustavo Bernardo, editor executivo da EdUERJ, sobre a sua import\u00e2ncia dessa obra para a literatura brasileira. Ele \u00e9 autor do texto de apoio que integra a edi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog: Publicar O Corti\u00e7o pela cole\u00e7\u00e3o EdUERJ de Bolso faz parte de uma estrat\u00e9gia de lan\u00e7ar as leituras indicadas ao vestibular da UERJ que est\u00e3o em dom\u00ednio p\u00fablico ou foi uma op\u00e7\u00e3o editorial?<\/strong><br>Gustavo: A articula\u00e7\u00e3o entre as unidades e os setores na universidade costuma ser, infelizmente, fr\u00e1gil e, na melhor das hip\u00f3teses, apenas ocasional. O vestibular da UERJ, realizado h\u00e1 d\u00e9cadas pelo Departamento de Sele\u00e7\u00e3o Acad\u00eamica, \u00e9 um bom exemplo dessa desarticula\u00e7\u00e3o. Apesar de ser hoje, a meu ju\u00edzo, obviamente parcial, o melhor exame vestibular do pa\u00eds, principalmente depois da capitula\u00e7\u00e3o das universidades federais ao ENEM, o vestibular da UERJ \u00e9 praticamente ignorado pelas diferentes unidades universit\u00e1rias, tornando-se objeto de discuss\u00e3o somente para se reclamar da queda nos n\u00fameros de inscritos e de aprovados e ent\u00e3o defender que a UERJ tamb\u00e9m se renda ao ENEM. Essa reclama\u00e7\u00e3o serve para que n\u00e3o se discutam e n\u00e3o se enfrentem raz\u00f5es muito mais graves, como curr\u00edculos inchados e defasados, al\u00e9m de oferta de vagas bem maior do que a demanda dos candidatos. Desde 2017, no entanto, a rela\u00e7\u00e3o entre o Departamento de Sele\u00e7\u00e3o Acad\u00eamica e a EdUERJ tem sido constante e produtiva. A Editora da UERJ vem publicando os livros indicados para o vestibular da universidade que j\u00e1 estejam em dom\u00ednio p\u00fablico, acompanhados, \u00e0 guisa de posf\u00e1cio, de um texto de apoio assinado sempre por um professor da UERJ. J\u00e1 foram publicados: O alienista, de Machado de Assis; O crime do padre Amaro, de E\u00e7a de Queir\u00f3s; Quincas Borba, de Machado de Assis; Senhora, de Jos\u00e9 de Alencar; e O Corti\u00e7o, de Alu\u00edsio Azevedo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog: Como voc\u00ea avalia a escolha desse livro para o vestibular da UERJ?<\/strong><br>Gustavo: Quando o Departamento de Sele\u00e7\u00e3o Acad\u00eamica resgatou a pr\u00e1tica de indicar livros de fic\u00e7\u00e3o para o vestibular, como ocorre h\u00e1 d\u00e9cadas nos principais vestibulares do pa\u00eds, atendeu a uma sugest\u00e3o do ent\u00e3o Reitor da UERJ, professor Ruy Garcia Marques: fazer uma consulta p\u00fablica atrav\u00e9s da Revista do Vestibular, para que os candidatos e os professores dos col\u00e9gios de ensino m\u00e9dio votassem nessa consulta. A consulta tem sido um sucesso, gerando de dez a vinte mil acessos por ano, o que promove uma discuss\u00e3o muito interessante, tanto sobre a literatura quanto sobre o vestibular. A escolha, neste ano, de O Corti\u00e7o me parece especialmente instigante, porque o romance de Alu\u00edsio Azevedo tem sido trabalhado nas escolas h\u00e1 muito tempo, mas com \u00eanfase no estudo das caracter\u00edsticas do estilo de \u00e9poca conhecido como Realismo, ou Realismo-Naturalismo. A indica\u00e7\u00e3o do romance, neste ano de 2026, permite que novas discuss\u00f5es sejam abertas sobre a narrativa propriamente dita, com a tens\u00e3o entre a den\u00fancia social que ela prop\u00f5e, ainda no s\u00e9culo XIX, e as manifesta\u00e7\u00f5es de racismo do pr\u00f3prio narrador .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog: Voc\u00ea escreveu o texto de apoio que integra o livro. A den\u00fancia social proposta pela trama de &#8220;O Corti\u00e7o&#8221; mant\u00e9m-se contundente ? Por qu\u00ea?<\/strong><br>Gustavo: O meu texto de apoio traz por t\u00edtulo a pergunta: O Corti\u00e7o \u00e9 racista? Nos termos do enredo, a resposta \u00e9 negativa: praticamente todos os personagens do romance, negros e brancos, portugueses e brasileiros, se d\u00e3o mal, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do vil\u00e3o, o portugu\u00eas dono do corti\u00e7o. Nesse sentido, o romance de Alu\u00edsio Azevedo \u00e9, antes de tudo, ultra pessimista. Ele faz, sim, uma den\u00fancia social bem contundente, mas n\u00e3o aponta nenhuma sa\u00edda ou alternativa para a mis\u00e9ria, a explora\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia. A den\u00fancia de Alu\u00edsio Azevedo, 135 anos depois da publica\u00e7\u00e3o do livro, ainda \u00e9 v\u00e1lida \u2013 infelizmente. Racismo, machismo, homofobia e xenofobia: tudo o que l\u00e1 estava, aqui continua. A quest\u00e3o do racismo, entretanto, \u00e9 mais complexa, porque, ao mesmo tempo que o romance a denuncia, tamb\u00e9m manifesta racismo \u2013 por exemplo, na caracteriza\u00e7\u00e3o dos personagens negros e em algumas interven\u00e7\u00f5es do narrador. Apesar dessa contradi\u00e7\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o final do romance \u00e9 t\u00e3o terr\u00edvel quanto brilhante, desvelando a trag\u00e9dia que nos afeta at\u00e9 os dias de hoje. Lembremos que a hist\u00f3ria foi publicada exatos dois anos depois da promulga\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea, abolindo a escravid\u00e3o no Brasil. A maneira como a lei foi escrita, indenizando os propriet\u00e1rios dos escravos e n\u00e3o os pr\u00f3prios escravos, anunciava a dificuldade da sociedade de pelo menos reconhecer o seu crime contra a humanidade. A dificuldade desse reconhecimento perdura at\u00e9 o momento em que vivemos, mantendo os negros em situa\u00e7\u00e3o inferior, t\u00e3o inferior que, algumas vezes, parece que a escravid\u00e3o n\u00e3o foi abolida, porque os capit\u00e3es do mato ainda est\u00e3o aqui, vestindo o uniforme da pol\u00edcia militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Alu\u00edsio Azevedo faz com que Jo\u00e3o Rom\u00e3o devolva sua companheira e parceira, Bertoleza, \u00e0 escravid\u00e3o, o que a leva a se matar com a faca de cozinha. Jo\u00e3o Rom\u00e3o se esconde no canto mais escuro do armaz\u00e9m, tapando o rosto com as m\u00e3os. Nesse momento, chega uma comiss\u00e3o de abolicionistas que lhe trazem o diploma de s\u00f3cio benem\u00e9rito. A \u00faltima frase do romance \u00e9: \u201cele mandou que os conduzissem para a sala de visitas\u201d. Ainda n\u00e3o li den\u00fancia melhor do que esta, a respeito da hipocrisia nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitura indicada para o Vestibular 2027 da UERJ, &#8220;O corti\u00e7o&#8221;, de Alu\u00edsio Azevedo, recebeu uma vers\u00e3o pela cole\u00e7\u00e3o EdUERJ de Bolso, s\u00e9rie vestibular. O Blog da EdUERJ conversou com o professor Gustavo Bernardo, editor executivo da EdUERJ, sobre a sua import\u00e2ncia dessa obra para a literatura brasileira. 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