{"id":39630,"date":"2026-08-25T13:17:47","date_gmt":"2026-08-25T16:17:47","guid":{"rendered":"https:\/\/eduerj.com\/br\/?p=39630"},"modified":"2026-08-25T13:22:32","modified_gmt":"2026-08-25T16:22:32","slug":"professor-rodrigo-duarte-fala-de-seu-livro-sobre-adorno-e-flusser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/professor-rodrigo-duarte-fala-de-seu-livro-sobre-adorno-e-flusser\/","title":{"rendered":"Professor Rodrigo Duarte fala de seu livro sobre Adorno e Flusser"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>O Blog da EdUERJ traz uma conversa com o professor Rodrigo Duarte, autor de  &#8220;Teoria cr\u00edtica e p\u00f3s-hist\u00f3ria: di\u00e1logos poss\u00edveis entre Theodor Adorno e Vil\u00e9m Flusser&#8221;(EdUERJ, 2026). Na entrevista, ele conta como surgiu a proposta do livro, inspirada em um encontro que ocorreu entre Adorno e Flusser, em 1966: &#8220;Como essa conversa n\u00e3o foi documentada em parte alguma, a ideia de escrever um livro, ampliando e sistematizando os artigos e cap\u00edtulos que eu j\u00e1 tinha escrito sobre o relacionamento entre Adorno e Flusser nasceu de minhas elucubra\u00e7\u00f5es sobre o que teria sido essa conversa entre ambos&#8221;. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>O lan\u00e7amento do livro ocorre no s\u00e1bado 29 de agosto, na Livraria Quixote, em Belo Horizonte, \u00e0s 11h. A iniciativa integra a Jornada Teoria Cr\u00edtica e P\u00f3s-hist\u00f3ria Adorno -Flusser cuja programa\u00e7\u00e3o inicia na sexta-feira, 28 de agosto, e pode ser conferida no Instagram do Depto de Filosofia da UFMG.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ:  O livro traz reflex\u00f5es sobre Adorno e Flusser. Como surgiu a proposta de reunir esses dois fil\u00f3sofos como objeto de um estudo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Theodor Adorno foi o tema da tese de doutorado que defendi em Kassel (Alemanha) em 1990 e, depois disso, foi o t\u00f3pico de sucessivos projetos de pesquisa que desenvolvi e que resultaram em numerosas publica\u00e7\u00f5es em forma de livro, artigos de peri\u00f3dicos e cap\u00edtulos de livros. O meu interesse por Vil\u00e9m Flusser tamb\u00e9m \u00e9 muito antigo, pois tomei contato com a sua obra ainda na d\u00e9cada de 1980, mas ela ainda n\u00e3o tinha se tornado algo central na minha pesquisa. Em 2000, num per\u00edodo como professor visitante na Universidade Bauhaus de Weimar, percebi que v\u00e1rios colegas alem\u00e3es tinham muito interesse na teoria dos\u00a0<em>media<\/em>\u00a0de Flusser e, ao tomar contato mais pr\u00f3ximo com ela, vi que havia muitos pontos de contato com o que Adorno havia proposto na sua cr\u00edtica \u00e0 ind\u00fastria cultural. Da\u00ed surgiram os primeiros artigos aproximando os dois autores. Mas o ponto de inflex\u00e3o foi quando tomei conhecimento de que Adorno e Flusser tiveram um encontro pessoal uma vez em Frankfurt e, numa carta \u00e0quele, Flusser agradeceu pela conversa &#8220;muito impressionante e instrutiva\u201d que teve com ele. Como essa conversa n\u00e3o foi documentada em parte alguma, a ideia de escrever um livro, ampliando e sistematizando os artigos e cap\u00edtulos que eu j\u00e1 tinha escrito sobre o relacionamento entre Adorno e Flusser nasceu de minhas elucubra\u00e7\u00f5es sobre o que teria sido essa conversa entre ambos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Como foi a sele\u00e7\u00e3o dos temas dos cap\u00edtulos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Os temas dos cap\u00edtulos surgiram exatamente da minha imagina\u00e7\u00e3o sobre os temas que seriam poss\u00edveis nessa conversa entre Adorno e Flusser, baseada nos t\u00f3picos muito relevantes para cada um deles que, de algum modo, estivessem presentes no pensamento dos dois fil\u00f3sofos. Foi da\u00ed que surgiram os temas dos sete cap\u00edtulos, que s\u00e3o apresentados no livro em ordem alfab\u00e9tica: \u201cAuschwitz\u201d, \u201cAutenticidade\u201d, \u201cComunica\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cCultura de massas\u201d, \u201cEduca\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cKafka\u201d e \u201cM\u00fasica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: A publica\u00e7\u00e3o apresenta o pensamento de Adorno e Flusser sobre determinados temas e tamb\u00e9m a sua perspectiva anal\u00edtica. Como foi o trabalho de pesquisa e qual o maior desafio em sua realiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Eu poderia dizer que a pesquisa como um todo durou cerca de vinte anos, pois a minha abordagem dos dois fil\u00f3sofos e daquilo que h\u00e1 em comum entre eles foi se amalgamando aos poucos, e as semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre eles tamb\u00e9m foram se revelando para mim paulatinamente. Nesse meio tempo, escrevi livros que abordavam, isoladamente, tanto o pensamento de Adorno quanto o de Flusser, mas sempre me prometendo, em algum momento, fazer uma obra que abordasse ambos os fil\u00f3sofos conjuntamente. Apesar de eu possuir todos os pressupostos para escrever um livro assim, o processo todo demorou muito, mesmo porque, antes de eu me aposentar, a reda\u00e7\u00e3o da obra foi interrompida muitas vezes (frequentemente por longos per\u00edodos) em fun\u00e7\u00e3o de outras atividades acad\u00eamicas, at\u00e9 eu conseguir finalizar o livro no final de 2025, mais de dois anos depois de minha aposentadoria na UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u00a0<strong>Blog da EdUERJ: Flusser e Adorno t\u00eam vis\u00f5es distintas sobre a comunica\u00e7\u00e3o. Todavia na \u00e9poca em que viveram n\u00e3o havia o tipo de conectividade dos nossos tempos ou adventos como \u201ctempo real\u201d e \u00a0redes sociais. A vis\u00e3o de Adorno, bastante cr\u00edtica sobre a comunica\u00e7\u00e3o, e a de Flusser, que abordou a comunica\u00e7\u00e3o como um dos dados mais b\u00e1sicos da exist\u00eancia humana, dialogam com os fen\u00f4menos comunicacionais dos dias de hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O tema da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos que mais explicitam diferen\u00e7as importantes entre Adorno e Flusser. Pois, como se sabe, Adorno foi um implac\u00e1vel cr\u00edtico da ind\u00fastria cultural e, uma vez que essa tendia a ocupar todos os espa\u00e7os no \u00e2mbito da comunica\u00e7\u00e3o, ele considerava que esse dom\u00ednio estava irremediavelmente contaminado pela coer\u00e7\u00e3o sist\u00eamica do que ele chamava de \u201cmundo administrado\u201d. J\u00e1 Flusser fazia uma diferencia\u00e7\u00e3o importante entre modos de comunica\u00e7\u00e3o humana potencialmente livres desse tipo de coer\u00e7\u00e3o e outros que se encontravam totalmente comprometidos por ela. Mas Flusser tem uma vantagem hist\u00f3rica sobre Adorno, falecido em 1969, pois ele presenciou o in\u00edcio do processo que nos trouxe \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual de onipresen\u00e7a da Internet e das redes sociais. Ali\u00e1s, h\u00e1 muito de premonit\u00f3rio em v\u00e1rias propostas de Flusser sobre como se desenvolveriam os novos&nbsp;<em>media<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Seu livro articula uma esp\u00e9cie de interlocu\u00e7\u00e3o dos dois fil\u00f3sofos a partir de temas selecionados. \u00c9 not\u00f3rio que ocorreu um encontro entre eles em 1966, em Frankfurt, todavia pouco se soube dessa reuni\u00e3o. Voc\u00ea acredita que tenha havido algum motivo para essa lacuna?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O fato \u00e9 que \u00e0quela altura, Adorno j\u00e1 era um fil\u00f3sofo mundialmente consagrado e, al\u00e9m disso, muito empenhado nos debates p\u00fablicos relacionados com a consolida\u00e7\u00e3o da democracia na Alemanha do p\u00f3s-guerra e inclusive das for\u00e7as que a amea\u00e7avam. Flusser apareceu em Frankfurt um pouco como \u201cprimo pobre\u201d, pois, apesar de, \u00e0quela altura, ele j\u00e1 ser bem conhecido no Brasil, na Alemanha era um ilustre desconhecido. Isso s\u00f3 come\u00e7ou a mudar depois que Flusser deixou o Brasil e se instalou no sul da Fran\u00e7a, publicando muito em alem\u00e3o e participando de debates importantes do mundo intelectual europeu. Mas, nessa \u00e9poca, Adorno j\u00e1 tinha morrido havia alguns anos. Quero dizer com isso que Adorno, \u00e0 \u00e9poca do encontro com Flusser, n\u00e3o tinha interesse imediato em tornar p\u00fablica a conversa que ele tinha tido com um fil\u00f3sofo oriundo de uma \u00e1rea perif\u00e9rica do antigo imp\u00e9rio austro-h\u00fangaro (a ent\u00e3o Checoslov\u00e1quia) e residente num pa\u00eds ainda mais perif\u00e9rico, como o Brasil dos anos 1960. J\u00e1 Flusser, ao retornar ao Brasil, divulgou o quanto p\u00f4de que tinha encontrado com o famoso fil\u00f3sofo frankfurtiano, mas n\u00e3o entrou em detalhes sobre o que teria sido o tema de sua conversa com ele. Desse modo, o fato acabou caindo num total esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Um cap\u00edtulo do livro enfoca a quest\u00e3o de Auschwitz e diz que \u201cpara Flusser tanto quanto para Adorno, Auschwitz s\u00f3 foi poss\u00edvel porque j\u00e1 havia anteriormente uma forte tend\u00eancia ao esfriamento nas rela\u00e7\u00f5es humanas, \u00e0 indiferen\u00e7a radical pelo destino dos outros\u201d. Ou, \u201cnos termos de Adorno, a chamada frieza burguesa, isto \u00e9, para al\u00e9m da exist\u00eancia da contraposi\u00e7\u00e3o dos dominantes aos subalternos, a total falta de empatia daqueles para com esses. Na linguagem de Flusser, trata-se da paulatina, por\u00e9m quase inexor\u00e1vel, transforma\u00e7\u00e3o dos seres humanos em funcion\u00e1rios\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Gostaria que voc\u00ea comentasse sobre essas reflex\u00f5es, se tamb\u00e9m serviriam ao processo de desumaniza\u00e7\u00e3o que, para muitos, se amplia a partir do advento do mundo digital dos dias de hoje. Isso tamb\u00e9m ajudaria a explicar a viol\u00eancia cotidiana e as guerras do mundo contempor\u00e2neo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ainda que os meios digitais tenham prometido, num primeiro momento, uma amplia\u00e7\u00e3o pronunciada das possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o e de entendimento entre os seres humanos, a subordina\u00e7\u00e3o daqueles meios \u00e0s rela\u00e7\u00f5es tardo-capitalistas de produ\u00e7\u00e3o acabaram por criar uma monstruosa rede de dissemina\u00e7\u00e3o de \u00f3dio, que tem sido respons\u00e1vel por um enorme crescimento da extrema direita &#8211; ideologia do nazi-facismo da primeira metade do s\u00e9culo XX &#8211; em todo o mundo. A prolifera\u00e7\u00e3o desse posicionamento se baseia exatamente no cultivo da total falta de empatia diante do sofrimento alheio, o que \u00e9 um tra\u00e7o comum a todas as suas vertentes ao redor do globo &#8211; inclusive na sua vers\u00e3o brasileira. Considero excepcionalmente elucidativas as contribui\u00e7\u00f5es tanto do conceito adorniano de \u201cfrieza burguesa\u201d quanto da concep\u00e7\u00e3o flusseriana sobre o perigo da transformac\u00e3o dos seres humanos em funcion\u00e1rios dos aparelhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Blog da EdUERJ: Por fim, gostar\u00edamos de saber a quem voc\u00ea recomenda a leitura do seu livro e sobre seus pr\u00f3ximos planos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Bem, o meu livro n\u00e3o \u00e9 propriamente uma obra de divulga\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 o resultado de uma pesquisa filos\u00f3fica de muitos anos, como j\u00e1 assinalei. Ainda assim, acho que ele se destina n\u00e3o apenas a um p\u00fablico exclusivamente versado em filosofia, mas afeito \u00e0s humanidades em geral, inclusive \u00e0s artes e as suas teorias. Pelo menos eu me esforcei para que seja assim: ao longo da exposi\u00e7\u00e3o da pesquisa, sempre que eu pr\u00f3prio percebia alguma tecnicalidade filos\u00f3fica que poderia dificultar o entendimento de um p\u00fablico mais amplo, me empenhava em explicitar ao m\u00e1ximo aquela passagem espec\u00edfica, fosse em notas de rodap\u00e9 ou no pr\u00f3prio corpo do texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Quanto aos meus pr\u00f3ximos planos, penso em dar sequ\u00eancia ao trabalho que venho realizando \u00e0 frente do grupo de pesquisa&nbsp;<a href=\"http:\/\/dgp.cnpq.br\/dgp\/espelhogrupo\/611426\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Modos de presen\u00e7a nos fen\u00f4menos est\u00e9ticos<\/em><\/a>, que j\u00e1 produziu um livro e dois dossi\u00eas em peri\u00f3dicos e tem realizado eventos peri\u00f3dicos desde de sua cria\u00e7\u00e3o em 2020. \u00c9 um trabalho coletivo muito estimulante, pois realiza amplamente o ideal de di\u00e1logo que Flusser preconizava, cuja fun\u00e7\u00e3o seria, segundo ele, produzir conhecimento novo. Isso tem acontecido j\u00e1 h\u00e1 seis anos e deve continuar acontecendo ainda por um bom tempo. Antevejo que minhas pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es devem contemplar a continuidade das discuss\u00f5es, juntamente com o grupo, desse tema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Blog da EdUERJ traz uma conversa com o professor Rodrigo Duarte, autor de &#8220;Teoria cr\u00edtica e p\u00f3s-hist\u00f3ria: di\u00e1logos poss\u00edveis entre Theodor Adorno e Vil\u00e9m Flusser&#8221;(EdUERJ, 2026). 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