{"id":8870,"date":"2016-01-18T15:48:38","date_gmt":"2016-01-18T15:48:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/?p=8870"},"modified":"2016-02-26T19:39:17","modified_gmt":"2016-02-26T19:39:17","slug":"a-mulher-nos-anos-60-uma-perspectiva-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduerj.com\/br\/a-mulher-nos-anos-60-uma-perspectiva-de-genero\/","title":{"rendered":"A mulher nos anos 60: uma perspectiva de g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>Eu tinha examinado e conhe\u00e7o a tese de mestrado de Lia. Como essa mulher cresceu! E como \u00e9 que ela encontrou espa\u00e7o e tempo para crescer? Lia m\u00e3e; Lia av\u00f3; Lia professora; Lia andando mundo afora, em Paris, Portugal; Lia que virou l\u00edder das professoras socialistas desse mundo. Lia fez tudo e Lia cresce e Lia estuda e Lia escreve cada vez mais claramente. &#8221; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Darcy Ribeiro<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em <em>Ideologia e utopia nos anos 60: um olhar feminino<\/em> (1997), Lia Faria retoma, de forma inquietante e questionadora, as profundas mudan\u00e7as sociais pelas quais as mulheres passaram na d\u00e9cada de sessenta. Reconhecendo o magist\u00e9rio como uma poss\u00edvel for\u00e7a domesticadora e o vi\u00e9s alienador de novas gera\u00e7\u00f5es de sua condi\u00e7\u00e3o de \u201ctia-professora\u201d, sob o risco de levar para as salas de aula sua pr\u00f3pria submiss\u00e3o hist\u00f3rica, a autora abre espa\u00e7o para uma nova mulher, consciente e militante. \u201cPol\u00edtica \u00e9 coisa de homem?\u201d, indaga, j\u00e1 no t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Ao perceber que, a partir de seu invent\u00e1rio como educadora e professora de Hist\u00f3ria, poderia analisar ideologias pol\u00edticas sob uma perspectiva de g\u00eanero, Lia Faria n\u00e3o foge ao dever para com sua classe (afinal, em uma abordagem materialista, g\u00eanero tamb\u00e9m \u00e9 classe \u2013 ou casta, por n\u00e3o permitir mobilidade social) e desconstr\u00f3i a naturaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de poder entre sexos, afirmando que masculino e feminino n\u00e3o passam de cria\u00e7\u00f5es sociais. Embora alinhada ao socialismo, Lia n\u00e3o poupa da cr\u00edtica esse regime econ\u00f4mico: a opress\u00e3o de g\u00eanero se processa nele tanto quanto no capitalista. E Lia \u00e9 antes mulher.<\/p>\n<p>Para Lia, ao sair, nos anos sessenta, da esfera privada familiar e ingressar na p\u00fablica \u2013 atrav\u00e9s da escolariza\u00e7\u00e3o, do trabalho ou da milit\u00e2ncia pol\u00edtica \u2013, a mulher avan\u00e7a em seu processo de emancipa\u00e7\u00e3o. Esse processo, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 homog\u00eaneo e se realiza principalmente na mulher de classe m\u00e9dia para cima. A oriunda das classes populares, enfrentando opress\u00f5es interseccionadas \u2013 de classe, de g\u00eanero e, muitas vezes, de ra\u00e7a \u2013, n\u00e3o vivencia o mesmo processo de profissionaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 talvez reconhecendo, como boa marxista, sua responsabilidade para com essa mulher perif\u00e9rica e vulner\u00e1vel que Lia Faria desconstr\u00f3i a for\u00e7a alienadora de seu papel de \u201ctia-professorinha\u201d: \u00e9 preciso n\u00e3o reproduzir em sala de aula sua pr\u00f3pria domestica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Se, em <em>O segundo sexo<\/em> (1949), Simone de Beauvoir estabelece que a constru\u00e7\u00e3o dos papeis de g\u00eanero da sociedade patriarcal faz do homem \u201co Sujeito, o Absoluto\u201d, e, da mulher, \u201co Outro\u201d, em<em>Ideologia e utopia nos anos 60: um olhar feminino<\/em>, Lia Faria subverte a l\u00f3gica social. J\u00e1 que, conforme Beauvoir, \u201cNenhuma coletividade se define como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si\u201d, Lia prop\u00f5e que a mulher reconhe\u00e7a o homem como o Outro. Repensar o imagin\u00e1rio social, arquitetado pelo Outro, ou seja, por homens, tornaria mais evidente o processo de aliena\u00e7\u00e3o da mulher \u2013 um importante passo para resgatar uma identidade sequestrada.<\/p>\n<p>A mulher j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais &#8220;a d\u00f3cil e casadoura professorinha&#8221; dos anos sessenta. Se, no final da d\u00e9cada de noventa, Lia Faria afirmou que o novo estava \u201cno sil\u00eancio rompido pelo grito e pela dor feminina\u201d que invadiam \u201cem cores e a cabo os cora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d, hoje esse grito ecoa ainda mais alto em <em>high definition<\/em> pela grande rede. O grito da mulher derrubar\u00e1 muros. E Lia insiste: comecemos pelos da escola. Afinal, j\u00e1 \u00e9 tempo de essa institui\u00e7\u00e3o \u201cdespertar para a quest\u00e3o de g\u00eanero e incorpor\u00e1-la \u00e0s suas preocupa\u00e7\u00f5es\u201d. <em>Ideologia e utopia nos anos 60: um olhar feminino\u00a0<\/em>traz a abordagem materialista da teoria de g\u00eanero para o contexto brasileiro e \u00e9 uma leitura indispens\u00e1vel para a professora contempor\u00e2nea que deseja construir, a partir de uma revis\u00e3o hist\u00f3rica, uma atua\u00e7\u00e3o em sala de aula mais pol\u00edtica e consciente.<\/p>\n<p>O livro est\u00e1 <a href=\"http:\/\/www.eduerj.uerj.br\/engine\/?product=ideologia-e-utopia-nos-anos-60-um-olhar-feminino\">dispon\u00edvel<\/a> gratuitamente para <em>download<\/em> no <em>site<\/em> da EdUERJ.<\/p>\n<p>Por Thayssa Martins, graduanda de Letras \u2013 Ingl\u00eas\/Literaturas na UERJ e bolsista de extens\u00e3o da EdUERJ.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tinha examinado e conhe\u00e7o a tese de mestrado de Lia. 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