A escrita da cultura: referência para as atividades etnográficas

O livro Writing culture é considerado um divisor de águas para as atividades de etnografia e um dos marcos do pós-modernismo na antropologia. Publicado originalmente em 1986, a obra chega agora ao mercado brasileiro, via Editora da UERJ, em parceria com a Editora Papéis Selvagens. Sob o nome “A escrita da cultura – poética e política da etnografia”, a coletânea, organizada por George Marcus e James Clifford, recebeu a tradução da professora Maria Cláudia Coelho.

A relevância para o meio acadêmico está relacionada ao debate que o livro instigou ao ser publicado. A escrita da cultura questiona a relação de referência que o meio antropológico supunha haver entre o texto etnográfico e a realidade cultural que o etnógrafo presume registrar. A perspectiva do etnógrafo de relatar a realidade estudada “tal como ela é” passa agora a ser relativizada diante de todos fatores externos que influenciam o registro etnográfico.

Os autores de A escrita da cultura propõem observar a narrativa da etnografia sob o viés de gênero literário, por meio do exame de suas figuras de linguagem, das estratégias retóricas e suas aproximações com outros estilos de literatura. Processos literários como a metáfora, a figuração e a narrativa são mecanismos que não devem ser descartados, pois afetam as formas como os fenômenos culturais são registrados, perpassando as primeiras observações rabiscadas até o conceito final.

Estas reflexões foram primeiramente expostas no seminário realizado pela School of American Research, em Santa Fé, no Novo México, com o propósito de discutir a produção de textos etnográficos. Em comum, os debatedores tinham o enfoque em questões relativas à antropologia cultural. Dois anos depois, os trabalhos apresentados na ocasião foram adaptados e compuseram Writing Culture.

Quando completou 25 anos de seu lançamento, a obra foi homenageada pelo periódico Cultural Anthropology, com a edição “Writing Culture at 25: Special Editor’s Introduction”, dedicada inteiramente à publicação. No texto de abertura, o editor Orin Starn declarou:

O livro encontrou leitores na literatura, na história, nos estudos visuais, e em outros campos, e além dos Estados Unidos (foi traduzido no mandarino e em outras línguas. Centenas de citações no Google Scholar são um barômetro moderno de um livro acadêmico influente. Writing culture foi citado 6,518 vezes e continua sendo citado.

 

A reflexão crítica proposta sobre a escrita dos etnógrafos é um marco que se mantém atual e agora pode ser compartilhada em uma edição brasileira, graças aos esforços da Editora da UERJ e da Editora Papéis Selvagens.

 

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