Entrevista com o professor Luiz Antonio de Castro Santos

Os ensaios de O Pensamento social no Brasil – Estilos, idiomas abordam a obra de intelectuais que procuraram pensar o Brasil, independente de modelos pré-estabelecidos. O autor, professor Luiz Antonio de Castro Santos, conversou com o Blog da EdUERJ sobre o livro, publicado em parceria com a Gramma Editora.

Você enfoca a produção de intelectuais ligados a um pensamento social brasileiro. Gostaria que você falasse sobre o impacto de se propor este debate nos dias de hoje.

Felizmente o debate ainda é uma possibilidade, ainda que não se aproxime de uma probabilidade estatística…

Há alguns anos a revista Lua Nova trouxe um excelente debate sobre o tema. O título remete diretamente ao texto na web: “Simpósio: cinco questões sobre o pensamento social brasileiro”. Ali está uma ótima e recente oportunidade para uma perspectiva otimista. De Angélica Madeira a Sérgio Miceli, os depoimentos revelam ao leitor algo raro no mundo acadêmico: em nossa área quase todos se leem, ou seja, nos lemos! Isto obviamente pode ser um “fator de impacto” na tentativa de alcançarmos o leitor. Se focalizarmos uma das cinco questões, “Quais os livros ou artigos da área você destacaria?”, os depoimentos sugerem um bom intercâmbio. Cita-se com alguma frequência trabalhos de Sérgio Miceli, Angela Alonso, Eduardo Jardim de Moraes, Elide Rugai Bastos, Renan Freitas Pinto, Lilia Moritz Schwarcz, Roberto Ventura, Ricardo Benzaquen, Luiz Werneck Vianna, entre mais de uma dezena de autores, denotando o intercâmbio que apontei. Por fim, e importantíssimo, lembrados nos depoimentos de Werneck Vianna e Roberto Motta, lá estão os Nossos Clássicos – lembro aqui a valiosa coleção de livrinhos com esse título, publicados pela antiga Editora Agir – Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Enfim, o debate está no ar, disputando lugar na enxurrada de temas importantes que nos atraem a atenção e nos forçam a fazer escolhas difíceis no dia a dia.

Seu livro traz reflexões sobre autores como Pereira Barreto, Azevedo Sodré, Arthur Neiva, Belisário Pena e Sergio Buarque de Holanda. Qual foi o ponto crucial que o levou a escrever sobre estes nomes? 

 

Sérgio Buarque é e será sempre um “ponto crucial”. Hoje, mais do que nunca, pois leio, perplexo, uma torrente de interpretações equivocadas sobre sua obra, em particular sobre Raízes do Brasil. Mas mesmo o livro Visão do Paraíso, “poupado” pela crítica recente, anda meio negligenciado.

Raízes do Brasil, obra inicialmente publicada em 1936, recebeu um prefácio extraordinariamente esclarecedor de Antonio Candido à quinta edição, de 1969. Costumo dizer aos meus alunos que não se trata de um prefácio qualquer. É leitura obrigatória. E, curioso, sempre me vem à cabeça a ideia de que seus críticos mais retumbantes, entre os quais se alinha/desalinha o Prof. Jessé de Souza, jamais leram o prefácio. Porque Antonio Candido de fato põe o livro em seu contexto “enraizado”, em sua época de fecundação e germinação. A leitura do prefácio evita algo que vai se tornando moda em nossos cursos de ciências humanas, que é rotular, para não ler. Por exemplo, “Gilberto Freyre criou o mito de que somos uma democracia racial”. Não é verdade, os leitores de boa-fé de Gilberto devem ler Oracy Nogueira e sua distinção do preconceito de marca (herança do Brasil escravocrata) e preconceito de origem (herança dos Estados Unidos escravocrata) – fundamental leitura para relermos Gilberto. Sem preconceitos.

Sobre Visão do Paraíso o que teria a dizer está no capítulo que intitulei, a modo de provocação, “Convite a Todorov para ler Sérgio Buarque de Holanda”. Em duas palavras, meu artigo busca revelar que Visão do Paraiso discute, com imensa erudição, a conquista “das Américas”, enquanto o ensaísta romeno focaliza apenas o Caribe e o México. Mas o título de sua obra, traduzida mundo afora, é enganoso: A Conquista da América (meu grifo), mas paradoxalmente é apenas a voz de um dos povos. Sérgio dá voz às Américas e a seus povos, não apenas a um povo das Américas.

 

Você vê muitas interpretações equivocadas da obra de Sérgio Buarque de Holanda, certo?

 

Sim. Temos hoje o exemplo funesto de que Sérgio Buarque de Holanda teria inventado o “homem cordial” brasileiro, assim como a nossa “pretensa herança patrimonial-patriarcal” (cito aqui passagem de um livro muito importante, de Sérgio Tavolaro). Eu teria de retirar, de pronto, o adjetivo “pretensa” – pois aquela herança, muito bem estudada por “Nossos Clássicos”, é a argamassa que revestiu e reveste nosso presente de brutais desigualdades, injustiças e identidades sociais esgarçadas – de ponta a ponta, de nossa juventude sem rumo aos idosos abandonados; das classes operárias aos sem-teto e sem-terra. Ora, esse é o ponto que remete às tolices ditas por críticos de Sérgio Buarque sobre a “cordialidade”. É preciso que entendamos o conceito, em Sérgio, como uma contraposição à “civilidade”. Somos “cordiais” não porque somos “bonzinhos”, mas porque não incorporamos, em nossa sociabilidade, a capacidade de distinguir o espaço público, de um lado, da vida privada, de outro. A cordialidade é o espaço dos afetos. O termo vem do latim, “cor, cordis”, coração…  Nossos interesses se pautam, não pelo sentido de coletividade, mas pelo sentido da família, da casa-grande, de meu território e de minha herança de nome e tradição…  Há uma passagem na obra Labirinto da Solidão, do ensaísta mexicano Octavio Paz, que fala justamente da “cordialidade” em seu país: “traição e lealdade jazem fundo em nossa mirada”.

 

Gilberto Freyre está em destaque no livro, abordado em quatro capítulos, ao contrário dos outros autores escolhidos. Como foi o processo de confecção deste material? Aliás, um dos capítulos trata do impacto de Gilberto na historiografia norte-americana. Como se dá esta contribuição?

 

O processo de confecção teve início na segunda metade dos anos de 1970, durante meu doutorado no departamento de sociologia, na universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts. Tínhamos de produzir um “paper teórico” e passar por um “qualifying” quantitativo. Nunca fui bom em métodos quantitativos e decidi fazer cursos introdutórios do outro lado de Harvard Yard, na Faculdade de Educação, que era fraquinha, tipicamente uma unidade de Harvard voltada para produzir mestres e doutores “do Terceiro Mundo”. Mas aprendi o básico, que ficou até hoje.

Quanto ao texto de caráter teórico, decidi escrever sobre Gilberto Freyre, justamente porque seu impacto na historiografia norte-americana tinha sido considerável e, naqueles anos de 1970, a onda tinha passado – e eu queria retomar o tema, trazê-lo de volta para colegas e professores que, com poucas exceções, não o conheciam.  Pensei inicialmente em compará-lo, sob vários ângulos, à trajetória de Florestan Fernandes – então exilado no Canadá e com boa tradução de seus textos para o inglês. O paper representava um requisito para o mestrado em sociologia e o tema não podia em hipótese alguma ser o mesmo da tese, que eu já decidira dedicar a um estudo histórico-sociológico da Saúde no Brasil.

Ao retornar ao Brasil e ler e reler a produção de vida inteira de Gilberto Freyre, tive uma sensação muito forte  – que explica, talvez, o número maior de capítulos que dedico ao Mestre de Apipucos neste livro. Foi a percepção de uma queda de qualidade acentuada em seus escritos, a partir de seus cinquenta ou sessenta anos de idade. Como Gilberto nascera na virada do século, são os anos cinquenta em diante, a meu ver, que denotam essa mudança – uma fragilidade em seus escritos, até então inexplicável para mim. Em busca de uma explicação é que redigi o que é agora o capítulo 3, que recebeu de Antonio Candido uma apreciação generosa sobre minha contribuição a uma “sociologia da vaidade”, por abordar os fatores ou condições que teriam influenciado o homem e o autor Gilberto, em sua trajetória descendente, fincada em Recife. Este é o argumento do texto: a partir de certo momento em sua vida o autor Gilberto se torna um ator – um mau ator  – em busca de reconhecimento e aprovação. E isto tem um efeito desfavorável, para sua obra.

 

Você alega que o autor de Casa-grande & senzala foi mais bem sucedido ao falar das classes dominantes do que ao tratar das camadas mais populares. Você acredita que este fato possa impedir, nos dias de hoje, um reconhecimento mais profundo da obra de Freyre?

 

Estou seguro que sim, infelizmente. E isto é um desserviço ao debate sobre o pensamento social e político no Brasil. Nos dias de hoje, a “rejeição” aos escritos de Freyre (aos livros do “primeiro” Freyre –  autor de Casa-grande & senzala, de outra obra-prima que é Nordeste, além de Sobrados e mocambos) é ao mesmo tempo a rejeição à necessidade de entendermos como, a partir do passado senhorial e até os dias de hoje, particularmente no terreno pantanoso da política, as classes dominantes manipularam e manipulam espantosamente as classes populares. Tudo está lá, em tom maior e de tragédia grega, em passagens da obra primeira de Gilberto Freyre. É ler, para crer.

Na introdução, você manifesta a preocupação com a adesão dos estudantes à pauta da agenda das metrópoles internacionais em detrimento da busca de uma reflexão que não se afaste por completo da nossa realidade. Você acredita que a universidade ainda pode mudar esta tendência?

Tenho receio de que temos de superar, para a mudança de tal tendência, certas dimensões do que chamo a “subalternidade” em relação ao centro ou às metrópoles internacionais. Está em todos nós, não apenas entre os estudantes. Na verdade, a crítica a um imaginado discurso hegemônico de nossos clássicos – hegemonia de antigos autores sobre as gerações atuais – é equivocada. A hegemonia é externa. Os excessos de vocações “tribais”, por exemplo, são um produto-USA. Conheço colegas, nos Estados Unidos, que não dominam a literatura sociológica que formou seus mestres e mestras e formou minha geração, mas se tornaram “especialistas” em gênero, em “racial studies” etc. Há um enquistamento espantoso, que trai nossas melhores tradições nas ciências humanas. Pena que, justamente, não sejamos hegemônicos, se me permito aqui a ironia. Sempre rendemos tributo a vozes de fora.

Um exemplo surpreendente está nos trabalhos de Boaventura de Souza Santos, cuja crítica justa à negligência do centro em relação a nossas periferias deixa de considerar que mesmo nossos e nossas colegas de Lisboa, Coimbra ou Braga estão de olhos voltados para a França, Inglaterra, Estados Unidos – e não para nós. Não há diálogo conosco, afora as citaçõezinhas de praxe. Isso vale para Boaventura, cujo círculo e impacto internacional desconhecem a produção brasileira. Estou convencido, hoje, de que deveríamos abrir nossas portas a alunos portugueses para fazerem pós-doutorados sérios conosco, não privilegiar a direção inversa: alunos nossos fazendo doutorados e recém-doutores fazendo “pós-doutorados” em Portugal. A rigor, se quisermos medir “impactos”, a consolidação das ciências humanas no Brasil data dos anos 30, enquanto Salazar mumificou a vida acadêmica portuguesa por 40 anos.

Vejamos, no Brasil, o que ocorre com os chamados “convidados internacionais”, que têm acolhida fraterna e festiva como palestrantes em nossos Congressos. Se acompanharmos seu retorno a seus centros de origem, impressiona como não deixamos qualquer traço em seus escritos – mesmo quando publicamos (hélas!) em inglês, em revistas feitas para nossos colegas que não dominam o português. … Nossos Clássicos têm uma envergadura excepcional, e não me parece que a estatura internacional de um Sérgio Buarque de Holanda – falo de lastro, de erudição e competência exemplares, não de “impacto lá fora” – tenha a ver com viagens a congressos no exterior, aos quais vamos para ouvir, não para sermos ouvidos. A trajetória de Gilberto Freyre é peculiar, como sugiro em meus capítulos sobre ele, mas eu diria que seus périplos internacionais foram importantes em sua carreira porque ele ia à França para dar conferências, não para assisti-las….

 

Por fim, “O pensamento social no Brasil” abrange temas diversos, sem se distanciar da questão do pensamento social. Que leitor você espera alcançar com esta nova edição?

 

Desejo alcançar, com o auxílio luxuoso do Blog de EdUERJ, o leitor ou a leitora que queira ou consiga escapar a modismos recentes, ou a críticas descabeladas a autores de outros tempos, como a Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Não será fácil, mas o livro, na presente reedição, está muito bonito, eu não uso jargão, creio que os temas de que trato são absolutamente atuais. E mesmo um texto que, digamos, “corre por fora”, que é o capítulo sobre a agricultura cafeeira na África dos anos 50, nos remete ao panorama atual, nosso, de produção monocultora para exportação e descaso à agricultura alimentar. Justamente do que trata nosso Gilberto em seu magistral Nordeste: Aspectos da Influência da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil. Um livro premonitório, de 1939. Obrigado à equipe da nova EdUERJ pela nova edição de meu livro, em parceria com a Gramma.

 

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