Entrevista com a professora Graziela Scheffer Machado

“Serviço Social na cadência da memória das pioneiras cariocas” (EdUERJ, 2021), de Graziela Scheffer Machado, é um título que tem um aspecto inegavelmente multidisciplinar, propondo um olhar sobre as primeiras assistentes sociais do Rio de Janeiro e destacando os primórdios da profissão. Sob forma de uma leitura convidativa e minuciosa, o livro analisa as raízes da profissão, em períodos como a Era Vargas ou fase desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck, efetuando uma interlocução entre os paradigmas que marcaram a área do serviço social e recortes históricos da sociedade brasileira,

O Blog da EdUERJ conversou sobre a autora, a professora Graziela Scheffer Machado.

Como surgiu o interesse em pesquisar os temas de “Serviço social na cadência da memória das pioneiras cariocas”?

Sempre tive curiosidade em conhecer mais a fundo as primeiras assistentes sociais, mas foi na proposta da tese de doutorado, investigando a relação entre serviço social e higienismo no Rio de Janeiro, que me deparei com material biográfico das pioneiras, principalmente pela via do projeto de história oral da Fundação Getúlio Vargas sobre história das políticas sociais no Brasil. A partir daí fui me dedicando a encontrar entrevistas e depoimentos sobre as trajetórias das pioneiras, para iluminar a análise histórico documental da época na interface com higienismo no Rio de Janeiro.

Gostaria que contasse um pouco do processo de pesquisa.

Além de ampla leitura da produção sobre o serviço social e o higienismo no Brasil, realizei trabalho de campo nos acervos das universidades (UERJ, UFRJ, PUC-RJ, UFF), no qual pude coletar documentos como currículos, trabalhos de conclusão, fichas de inscrição das estudantes e fotografias do período pesquisado. Além disso, fiz pesquisa nos acervos da Fundação Getúlio Vargas e CBISS visando encontrar publicações da época e entrevistas.

A primeira parte trata da influência externa sobre a atividade de serviço social, entre o legado europeu e o americano.  Qual era o impacto dessas influências?

Podemos considerar que Serviço Social franco -belga e norte americano estão nas bases constitutivas do Serviço Social na América Latina, contudo cada país guarda suas particularidades relacionadas à formação social de cada nação. No Brasil, essas influências têm marcas temporais distintas e combinações particulares com o higienismo e o ideário da Igreja Católica, formando um arranjo teórico, higienista e doutrinário que orientou a formação e trabalho profissional. O impacto destas correntes estão na constituição das primeiras escolas do serviço social brasileiro e na orientação do exercício profissional que abarca de 1936 até meados de 1960.

Essa adoção de pensamentos estrangeiros eram decorrência do estilo de vida da época ou havia algum tipo de orientação predeterminada aos assistentes sociais?

Com certeza era estilo vida da época. Conforme eu busquei demonstrar, era um traço constitutivo da cultura nacional e da intelectualidade de então. No Serviço Social, as ideias estrangeiras sofrem uma reelaboração para atender às particularidades da realidade brasileira da época, o que resulta num processo de “tropicalização” das matrizes estrangeiras, alinhada à tese de Schwarz (2009) que afirma que “Ao longo da reprodução social, incansavelmente o Brasil põe e repõe ideias europeias, sempre em sentido impróprio”. De modo que as ideias estrangeiras liberais sempre estiveram fora do lugar no Brasil, pois sempre mantivemos as estruturas arcaicas da mentalidade escravista camuflada nas relações de favor.

A segunda parte do livro é dedicada às pioneiras do serviço social no Rio de Janeiro. De alguma forma havia um perfil comum às assistentes sociais nesse momento inicial ou era um grupo que se caracterizava pela heterogeneidade?

Havia sim, um perfil comum que era constituído por mulheres, oriundas das camadas sociais altas (que estavam em decadência) e com forte vinculação com Igreja Católica.

Uma questão tratada no livro é a divergência entre as assistentes sociais a respeito da religião, contrapondo aqueles que procuravam fundamentos religiosos dos que tinham um olhar laico. O quão grande foi o impacto desse conflito?

Esse grupo laico era minoritário e com pouco impacto até meados de 1945. Só após a queda de Vargas e a chegada do Serviço Social clássico norte-americano é que foi se destacando essa dimensão mais técnica e laica da profissão, chegando até ter rupturas nos anos de 1960 com ebulição social, política e cultural na conjuntura do Governo Jango.

Essa diferença de ideias ainda persiste atualmente de forma a prejudicar a profissão?

Existem diferenças até porque vivemos uma conjuntura da extrema direita em nosso país, apoiada por segmentos evangélicos. Contudo, esse conflito não chega a prejudicar. Ainda parece muito camuflado. Hoje temos uma sólida formação laica e um claro projeto societário, entretanto não podemos deixar de observar que existem muitas demandas conservadoras colocadas na atualidade, como, por exemplo, o Escola sem Partido, além de todos ataques aos direitos sociais e trabalhistas.

Outro ponto de interesse do livro é o que trata das pioneiras do serviço social no Rio de Janeiro.  Você observa a trajetória de Maria Esolina Pinheiro, primeira diretora da FSS da UERJ. Qual foi a maior contribuição dela para a profissão?

Acredito que Maria Esolina, foi fundamental, pois foi liderança do grupo laico e progressista que confrontava a formação conservadora da época alinhada as camadas altas da sociedade. Nas entrevistas, as pioneiras católicas inclusive enfatizam que depois da Escola de Serviço Social da UERJ tudo mudou, pois ela não tinha vínculo com a Igreja Católica. Além disso, Maria Esolina publicou muitos livros com essa ênfase técnica e laica e também organizou Associação Brasileira de Serviço Social em 1953.

Ela também é considerada a primeira autora de livro de serviço social. Que tipo de obstáculos ela enfrentou?

Maria Esolina, enfrentou inúmeros obstáculos como mulher divorciada (na década 1930), com filhos e morava com companheiro também divorciado. Muitas vezes foi expulsa de reuniões profissionais por alegar que a escola da UERJ não tinha cunho religioso. Por isso não era bem-vinda no debate profissional. Por outro lado, tinha apoio de importantes intelectuais da Nova Escola e de seu companheiro, que havia sido deputado federal antes da Ditadura Vargas.

O livro dedica um segmento à Dona Ivone Lara, a Dama do samba. Para os que não conhecem esse lado da artista, como era a sua ligação com o serviço social?

Acredito que um dos mais importantes achados da pesquisa foi esse encontro com Dona Ivone Lara no Serviço Social e na Saúde Mental, que expressa um lado pouco conhecido de nossa história profissional. A trajetória de Dona Ivone Lara no Serviço Social coincide com os passos iniciais da profissão que se encontrava ainda em fase de constituição. Ela se forma incialmente como enfermeira e visitadora social no início da década de 1940, durante a Segunda Guerra. Com o término da guerra houve a reabertura do curso de Serviço Social. As disciplinas de serviço social estavam entrelaçadas com as de visitadora social e de Enfermagem. Daí Dona Ivone, retoma os estudos em 1947 a fim de diplomação em Serviço Social. No Hospital Dom Pedro já exercia função de enfermeira, contudo, ao término, pede uma mudança de cargo para Assistente Social e passa a desenvolver, na época, um trabalho em conjunto com a Doutora Nise da Silveira.

Vale ressaltar que o livro veio em boa hora, servindo de homenagem aos 100 anos do nascimento de Dona Ivone Lara, comemorados em 2021. Ela era pioneira no serviço social, e, também no samba, uma das primeiras mulheres a compor, algo inédito em um universo predominantemente masculino. Como ela conseguiu conciliar essas duas atividades?

Fico muito feliz em poder reverenciar o centenário de Dona Ivone Lara, o coração fica em festa. Em relação à pergunta, as biografas escritas por Mila Burns e Katia Santos enfatizam que até se aposentar como assistente social em 1975, ela não se dedicava ao samba, mas sim ao trabalho na saúde mental. A Dama em seus relatos afirma que sempre tirava férias no Carnaval e assim conseguia conciliar sua carreira como assistente social e sua grande paixão pelo samba e carnaval. Em relação a ser uma mulher no samba, conforme minhas leituras, os primeiros sambas foram assinados pelo primo. Contudo, sua inserção nesse universo do samba vem de longa tradição familiar que, no meu ponto vista, contribuiu para que fosse aceita como uma mulher compositora e, posteriormente, como cantora.

O seu livro é dedicado “Aos assistentes sociais cariocas do passado e do presente”. Entre acertos e desafios, como você analisa hoje o panorama da profissão de serviço social?

No meu ponto vista, olhando a história profissional na sua totalidade, acredito que tivemos inúmeros acertos nesse giro do passado ao presente do Serviço Social brasileiro. Somos uma profissão reconhecida nacionalmente, teoricamente e tecnicamente referenciada contra o capitalismo ultra neoliberal. Contudo, ainda temos muitos desafios e o levantar da poeira da história pode contribuir no sentido de fortalecer nosso trabalho e formação profissional em sintonia com as resistências e lutas que nos forjaram até aqui e que nos permitirão avançar mais ainda por uma sociedade mais justa ou, quiçá, uma nova ordem societária sem exploração-opressão. Como canta Dona Ivone Lara:

“Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho
Mas eu vim de lá, pequenininho
Alguém me avisou
Pra pisar nesse chão devagarinho”

E é nesses passos miúdos e com cuidado que seguiremos enfrentando os novos desafios de uma educação contra barbárie em que vivemos, nessa conjuntura pandêmica e ultra neoliberal.

Professora, agradecemos a entrevista ao Blog da EdUERJ!

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