Livro vê representações da angolanidade em literatura africana contemporânea.

É indiscutível que a literatura ecoe as realidades sociais de cada país. Autores reproduzem angústias, anseios ou certezas, consciente ou inconscientemente, mesmo quando as obras não se propõem a navegar pela política ou pelo realismo. O desenvolvimento da literatura angolana é um exemplo disso. Durante um bom tempo ela refletiu o desejo comum do país de se desenredar da realidade inóspita de ser uma colônia.  A premência da libertação unia a todos, advento que ocorreu somente em 1975, com a revolução. Até então a cultura e as artes mantinham-se sincronizadas com os sonhos e esperanças de uma utopia libertária. E depois?

Algumas respostas podem ser encontradas em  A geração da distopia: Representações da angolanidade na prosa contemporânea de Luandino Vieira, Pepetela e João Melo de Melo. O livro  aborda o impacto da independência de Angola na produção da escrita angolana. A publicação, na seara da análise literária, trafega também por história e pelos estudos culturais. O autor Marcelo Brandão Mattos é professor adjunto da UERJ na área de literatura portuguesa e literaturas africanas de língua portuguesa.

A realidade, pós-independência, contribuiu para o surgimento de obras cujos personagens e cenários fossem pautados pelo desalento. Uma vez independente, Angola passou a sofrer com novas formas de subjugação pelo poderio econômico, além da perpetuação da exclusão social e da eclosão de situações de violência. A literatura questionou não só este cenário, tão diverso daquele que se imaginava, mas também as crenças e princípios que serviam de combustível para o nacionalismo. Essa faceta literária pode ser percebida nos seis livros, dos autores Luandino Vieira, Pepetela e João Melo de Melo, que são analisados por Marcelo Brandão. O título do livro da EdUERJ dialoga diretamente com A geração da utopia, de Pepetela. Este, embora não faça parte do escopo da análise,  “aponta a transição entre o sonho da nação independente e a realidade fraturada”.

A geração da distopia tem o mérito de procurar entender as implicações identitárias dessa vertente ideológica contemporânea, e, com isso, observar as novas representações ficcionais da angolanidade. O resultado aprofunda o conhecimento sobre autores que se atrevem a questionar os valores predominantes antes da independência, que se embasavam no nacionalismo e também em determinadas representações da africanidade. A geração distópica traz consigo esse desafio: repensar Angola e suas representações sem trazer prejuízo a símbolos culturais que resistiram a imposições europeias.

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