Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Professor Rodrigo Duarte fala de seu livro sobre Adorno e Flusser

O Blog da EdUERJ traz uma conversa com o professor Rodrigo Duarte, autor de “Teoria crítica e pós-história: diálogos possíveis entre Theodor Adorno e Vilém Flusser”(EdUERJ, 2026). Na entrevista, ele conta como surgiu a proposta do livro, inspirada em um encontro que ocorreu entre Adorno e Flusser, em 1966: “Como essa conversa não foi documentada em parte alguma, a ideia de escrever um livro, ampliando e sistematizando os artigos e capítulos que eu já tinha escrito sobre o relacionamento entre Adorno e Flusser nasceu de minhas elucubrações sobre o que teria sido essa conversa entre ambos”.

O lançamento do livro ocorre no sábado 29 de agosto, na Livraria Quixote, em Belo Horizonte, às 11h. A iniciativa integra a Jornada Teoria Crítica e Pós-história Adorno -Flusser cuja programação inicia na sexta-feira, 28 de agosto, e pode ser conferida no Instagram do Depto de Filosofia da UFMG.

Blog da EdUERJ: O livro traz reflexões sobre Adorno e Flusser. Como surgiu a proposta de reunir esses dois filósofos como objeto de um estudo?

Theodor Adorno foi o tema da tese de doutorado que defendi em Kassel (Alemanha) em 1990 e, depois disso, foi o tópico de sucessivos projetos de pesquisa que desenvolvi e que resultaram em numerosas publicações em forma de livro, artigos de periódicos e capítulos de livros. O meu interesse por Vilém Flusser também é muito antigo, pois tomei contato com a sua obra ainda na década de 1980, mas ela ainda não tinha se tornado algo central na minha pesquisa. Em 2000, num período como professor visitante na Universidade Bauhaus de Weimar, percebi que vários colegas alemães tinham muito interesse na teoria dos media de Flusser e, ao tomar contato mais próximo com ela, vi que havia muitos pontos de contato com o que Adorno havia proposto na sua crítica à indústria cultural. Daí surgiram os primeiros artigos aproximando os dois autores. Mas o ponto de inflexão foi quando tomei conhecimento de que Adorno e Flusser tiveram um encontro pessoal uma vez em Frankfurt e, numa carta àquele, Flusser agradeceu pela conversa “muito impressionante e instrutiva” que teve com ele. Como essa conversa não foi documentada em parte alguma, a ideia de escrever um livro, ampliando e sistematizando os artigos e capítulos que eu já tinha escrito sobre o relacionamento entre Adorno e Flusser nasceu de minhas elucubrações sobre o que teria sido essa conversa entre ambos.

Blog da EdUERJ: Como foi a seleção dos temas dos capítulos?

Os temas dos capítulos surgiram exatamente da minha imaginação sobre os temas que seriam possíveis nessa conversa entre Adorno e Flusser, baseada nos tópicos muito relevantes para cada um deles que, de algum modo, estivessem presentes no pensamento dos dois filósofos. Foi daí que surgiram os temas dos sete capítulos, que são apresentados no livro em ordem alfabética: “Auschwitz”, “Autenticidade”, “Comunicação”, “Cultura de massas”, “Educação”, “Kafka” e “Música”.

Blog da EdUERJ: A publicação apresenta o pensamento de Adorno e Flusser sobre determinados temas e também a sua perspectiva analítica. Como foi o trabalho de pesquisa e qual o maior desafio em sua realização?

Eu poderia dizer que a pesquisa como um todo durou cerca de vinte anos, pois a minha abordagem dos dois filósofos e daquilo que há em comum entre eles foi se amalgamando aos poucos, e as semelhanças e diferenças entre eles também foram se revelando para mim paulatinamente. Nesse meio tempo, escrevi livros que abordavam, isoladamente, tanto o pensamento de Adorno quanto o de Flusser, mas sempre me prometendo, em algum momento, fazer uma obra que abordasse ambos os filósofos conjuntamente. Apesar de eu possuir todos os pressupostos para escrever um livro assim, o processo todo demorou muito, mesmo porque, antes de eu me aposentar, a redação da obra foi interrompida muitas vezes (frequentemente por longos períodos) em função de outras atividades acadêmicas, até eu conseguir finalizar o livro no final de 2025, mais de dois anos depois de minha aposentadoria na UFMG.

 Blog da EdUERJ: Flusser e Adorno têm visões distintas sobre a comunicação. Todavia na época em que viveram não havia o tipo de conectividade dos nossos tempos ou adventos como “tempo real” e  redes sociais. A visão de Adorno, bastante crítica sobre a comunicação, e a de Flusser, que abordou a comunicação como um dos dados mais básicos da existência humana, dialogam com os fenômenos comunicacionais dos dias de hoje?

O tema da comunicação é um dos que mais explicitam diferenças importantes entre Adorno e Flusser. Pois, como se sabe, Adorno foi um implacável crítico da indústria cultural e, uma vez que essa tendia a ocupar todos os espaços no âmbito da comunicação, ele considerava que esse domínio estava irremediavelmente contaminado pela coerção sistêmica do que ele chamava de “mundo administrado”. Já Flusser fazia uma diferenciação importante entre modos de comunicação humana potencialmente livres desse tipo de coerção e outros que se encontravam totalmente comprometidos por ela. Mas Flusser tem uma vantagem histórica sobre Adorno, falecido em 1969, pois ele presenciou o início do processo que nos trouxe à situação atual de onipresença da Internet e das redes sociais. Aliás, há muito de premonitório em várias propostas de Flusser sobre como se desenvolveriam os novos media.

Blog da EdUERJ: Seu livro articula uma espécie de interlocução dos dois filósofos a partir de temas selecionados. É notório que ocorreu um encontro entre eles em 1966, em Frankfurt, todavia pouco se soube dessa reunião. Você acredita que tenha havido algum motivo para essa lacuna?

O fato é que àquela altura, Adorno já era um filósofo mundialmente consagrado e, além disso, muito empenhado nos debates públicos relacionados com a consolidação da democracia na Alemanha do pós-guerra e inclusive das forças que a ameaçavam. Flusser apareceu em Frankfurt um pouco como “primo pobre”, pois, apesar de, àquela altura, ele já ser bem conhecido no Brasil, na Alemanha era um ilustre desconhecido. Isso só começou a mudar depois que Flusser deixou o Brasil e se instalou no sul da França, publicando muito em alemão e participando de debates importantes do mundo intelectual europeu. Mas, nessa época, Adorno já tinha morrido havia alguns anos. Quero dizer com isso que Adorno, à época do encontro com Flusser, não tinha interesse imediato em tornar pública a conversa que ele tinha tido com um filósofo oriundo de uma área periférica do antigo império austro-húngaro (a então Checoslováquia) e residente num país ainda mais periférico, como o Brasil dos anos 1960. Já Flusser, ao retornar ao Brasil, divulgou o quanto pôde que tinha encontrado com o famoso filósofo frankfurtiano, mas não entrou em detalhes sobre o que teria sido o tema de sua conversa com ele. Desse modo, o fato acabou caindo num total esquecimento.

Blog da EdUERJ: Um capítulo do livro enfoca a questão de Auschwitz e diz que “para Flusser tanto quanto para Adorno, Auschwitz só foi possível porque já havia anteriormente uma forte tendência ao esfriamento nas relações humanas, à indiferença radical pelo destino dos outros”. Ou, “nos termos de Adorno, a chamada frieza burguesa, isto é, para além da existência da contraposição dos dominantes aos subalternos, a total falta de empatia daqueles para com esses. Na linguagem de Flusser, trata-se da paulatina, porém quase inexorável, transformação dos seres humanos em funcionários”

Gostaria que você comentasse sobre essas reflexões, se também serviriam ao processo de desumanização que, para muitos, se amplia a partir do advento do mundo digital dos dias de hoje. Isso também ajudaria a explicar a violência cotidiana e as guerras do mundo contemporâneo?

Ainda que os meios digitais tenham prometido, num primeiro momento, uma ampliação pronunciada das possibilidades de comunicação e de entendimento entre os seres humanos, a subordinação daqueles meios às relações tardo-capitalistas de produção acabaram por criar uma monstruosa rede de disseminação de ódio, que tem sido responsável por um enorme crescimento da extrema direita – ideologia do nazi-facismo da primeira metade do século XX – em todo o mundo. A proliferação desse posicionamento se baseia exatamente no cultivo da total falta de empatia diante do sofrimento alheio, o que é um traço comum a todas as suas vertentes ao redor do globo – inclusive na sua versão brasileira. Considero excepcionalmente elucidativas as contribuições tanto do conceito adorniano de “frieza burguesa” quanto da concepção flusseriana sobre o perigo da transformacão dos seres humanos em funcionários dos aparelhos.

Blog da EdUERJ: Por fim, gostaríamos de saber a quem você recomenda a leitura do seu livro e sobre seus próximos planos.

Bem, o meu livro não é propriamente uma obra de divulgação, porque é o resultado de uma pesquisa filosófica de muitos anos, como já assinalei. Ainda assim, acho que ele se destina não apenas a um público exclusivamente versado em filosofia, mas afeito às humanidades em geral, inclusive às artes e as suas teorias. Pelo menos eu me esforcei para que seja assim: ao longo da exposição da pesquisa, sempre que eu próprio percebia alguma tecnicalidade filosófica que poderia dificultar o entendimento de um público mais amplo, me empenhava em explicitar ao máximo aquela passagem específica, fosse em notas de rodapé ou no próprio corpo do texto.

Quanto aos meus próximos planos, penso em dar sequência ao trabalho que venho realizando à frente do grupo de pesquisa Modos de presença nos fenômenos estéticos, que já produziu um livro e dois dossiês em periódicos e tem realizado eventos periódicos desde de sua criação em 2020. É um trabalho coletivo muito estimulante, pois realiza amplamente o ideal de diálogo que Flusser preconizava, cuja função seria, segundo ele, produzir conhecimento novo. Isso tem acontecido já há seis anos e deve continuar acontecendo ainda por um bom tempo. Antevejo que minhas próximas publicações devem contemplar a continuidade das discussões, juntamente com o grupo, desse tema.