No dia 17 de março, às 15h30, o professor Naomar de Almeida Filho lança “A revolução de Georges Cabanis: uma reforma educacional na França pós-iluminista” na Livraria da EdUERJ. O livro, que sai pelo Grupo Editorial Quixote, ilumina a herança deixada pela contraditória figura do médico e intelectual francês do século XVIII, que atravessou fronteiras com suas reflexões a respeito do sistema educacional.
O autor, professor Naomar de Almeida Filho, professor de epidemiologia da Universidade Federal da Bahia e vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2025, conversou com o Blog da EdUERJ.
Professor, como surgiu a ideia de escrever sobre Georges Cabanis?
Fui convidado por Everardo Duarte Nunes para um evento sobre o centenário do Relatório Flexner, na Unicamp, em 2010. Para dar conta da tarefa, reli com novo olhar crítico o texto de Flexner que praticamente funda a medicina científica, depois fui estudar a história da educação médica, no mundo e no Brasil. Por acaso, encontrei o livro de Georges Cabanis, um Olhar sobre a revolução e as reformas da Medicina. Fiquei impressionado com o que li e mais ainda com a constatação de que se tratava de um pensador, fundador, pioneiro totalmente ignorado e esquecido.
Você considera Cabanis uma figura contraditória em termos de contribuições para o ensino?
Isso mesmo. Como tantos outros ilustres personagens da história, Cabanis representava o espírito do seu tempo. Ele era um intelectual formado no contexto do iluminismo francês, herdeiro de Descartes, Voltaire, Condillac e tantos outros. Foi militante bastante ativo na Revolução Francesa, do Atelier de Mirabeau e companheiro de Condorcet. Depois, foi líder do grupo da Idéologie e confrontou a tirania de Napoleão Bonaparte. Sua proposta de reforma da educação após a revolução tinha, ao mesmo tempo, elementos avançados e propostas conservadoras, como principalmente reorganizar o ensino superior a partir de faculdades e institutos isolados.
Por qual motivo, no Brasil, as influências de Cabanis na educação têm sido negligenciadas?
Como disse, inicialmente busquei analisar a ruptura Flexner, em particular sua ressonância imaginária, quase mitológica, no discurso político-social sobre a saúde no contexto brasileiro. A partir da análise de matrizes epistemológicas, conceituais e pedagógicas originárias do pensamento cartesiano, que é a base do racionalismo ocidental que nos dirige, levanto uma hipótese sobre as raízes da educação superior em saúde e da prática médica no Brasil: a reforma de Cabanis. Ao abordar o papel de Cabanis como reformador do ensino médico na modernidade, encontrei mais que uma negligência, encontrei uma repressão de memória, mesmo na terra natal de Cabanis, mas sobretudo no Brasil. Isso porque a reforma Cabanis, mesmo pervertida pelo modelo de educação francês bonapartista, inspirou plenamente o modelo de educação brasileiro, um modelo no qual até hoje a formação universitária, paradoxalmente, se dá em faculdades isoladas e autônomas.
Em que aspectos, o legados do pensamento de Cabanis encontra ecos no elitismo e no racismo estruturais existentes no mundo acadêmico?
No Brasil, assim como em outros países do Sul global, intelectuais e líderes políticos elaboraram e fomentaram mitos fundadores da sociedade brasileira, suprimindo a memória desagradável de um colonialismo predatório e violento, de um patriarcado cruel, de um racismo institucional que persiste, escondido, mas latente. Aqui me refiro também a intelectuais contemporâneos que conceberam e ainda cultivam mitos fundadores da universidade brasileira, promovendo uma memória seletiva. Essa memória enviesada, no limite, esconde as raízes de uma hegemonia eurocêntrica consentida e envergonhada que, no fundo, torna-se sintoma de um neocolonialismo acadêmico. Acho essa ambiguidade um extraordinário tema de pesquisa, uma chave valiosa para melhor compreensão da universidade como poderoso dispositivo de dominação cultural, científica e tecnológica. No plano internacional, esse neocolonialismo é cada vez mais acionado para reforçar laços de submissão geopolítica e econômica e, no plano interno da formação social brasileira, opera ao reproduzir relações sociais e lugares de poder.




